existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
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Set 07
publicado por alemvirtual, às 10:09link do post | comentar

 

p://www.yunphoto.net/pt/)

 

Há algum tempo atrás- parece ter decorrido uma eternidade, mas passaram apenas umas semanas- quando a minha filha trocou o Instituto Português de Oncologia pelo Hospital de Nª Srª do Rosário no Barreiro, trouxe-me um papel escrito que tinha retirado de uma caixinha, onde se podia ler "Pode levar". Estava na Unidade de Quimioterapia. Entregou-me esse papel, dizendo-me apenas: "Acho que vais gostar de ler".

Desde logo, pensei transcrever as palavras que ele continha, mas o tempo (Ah! esse maldito tempo que não se agarra, não retrocede e não pára) não permitiu fazê-lo antes.

 

Tudo tem um propósito. Hoje, ao transcrevê-las e, ao relê-las antes de o fazer, verifico como tudo o que dizem é a cópia fiel da degradação física dos últimos tempos da minha filha. A única diferença é a longevidade daquele que as escreveu, contrastando com a sua "meninice." A grandeza do seu autor, só é possível comparar à suprema grandiosidade da minha filha.

 

 

 

"Quando parece que nada mais resta

Admira-me ver tantas pessoas espantadas com a calma e que dou provas, neste estado miserável a que me reduziu a doença.

Perdi o uso das pernas, dos braços, das mãos e estou quase cego e mudo. Não poderei mais andar nem apertar a mão de um amigo, nem tão pouco posso escrever o meu nome. Não posso ler e quase não consigo conversar e ditar...

Mas é preciso ter em conta o que me resta.

É bem certo que as coisas e as pessoas me aparecem como formas vagas e imprecisas, mas eu posso gozar ainda a felicidade que me traz a luz do sol. (*)

Eu posso ainda adivinhar, quando as aproximo muito perto do meu olho direito(**), as manchas de cor das flores ou os traços de um rosto...

E tudo isso não é nada em comparação com os dons divinos que Deus permitiu que eu gozasse.

Através das lutas de todos os dias eu pude salvarguardar em mim a fé, a inteligência, a memória, a imaginação, a paixão da meditação e do raciocínio, e esta luz interior que se chama intuição ou inspiração...

A juventude reconhece-se em três sinais essenciais: o desejo de amar, a curiosidade intelectual e o espírito de luta. Apesar da minha idade e dos meus sofrimentos, sinto em mim uma necessidade irreprimível de amar e ser amado, experimento um desejo insaciável de novidades em todos os domínios do saber e da arte, e não fujo à polémica e ao ataque, quando se trata da defesa de valores supremos.

Tenho a ousadia de afirmar que, mesmo hoje, sinto-me conduzido, neste mar imenso da vida, pela grande maré da juventude..."

 

Giovani Papini

Capelania do HNSR, SA

 

 

(*) A única luz do sol que ela sentia era a filtrada pelos vidros, no piso 0, no pequeno corredor para a ala da radioterapia. E que felicidade quando lá passava na sua cama de rodinhas!! Eram cerca de 4 metros saboreados com um deleite que comovia...Nunca mais sentiu o vento, nem os raios de sol...

(**) O dela, o único com alguma visão era precisamente o direito


 

Quanta coincidência, filha...
 




Cara Amiga, com pesar lhe digo isto. Existem ALMAS Grandes, muito grandes, mas Deus e o seu AMOR é imenso e , a Fé, é a ultima estação em que pára o comboio da nossa vida. Apeie-se e reze, reze muito...

Muito solidário convosco neste momento

Mário Rodrigues
estreladosul a 12 de Setembro de 2007 às 01:29

Olá,
Não me pude aperceber, na voragem dos dias, da impressionante semelhança entre o que o autor do texto explicita e o que ela viveu. Creio, como exprimiu Natália Correia, no "incrível, nas coisas assombrosas - na ocupação do mundo pelas rosas"; que o amor tem, sim, asas de oiro. Que a maré viva da juventude e do amor imenso que ela transportou (transporta?) consigo e com que brindou o mundo foi uma constante na afirmação da felicidade e identidade da sua existência. Sempre.
AM a 12 de Setembro de 2007 às 12:27

AM


Ela foi, seguramente, a menina-mulher, a filha e esposa mais amada e que mais amou.
Foi feliz. Isso conforta-nos. Foi única. Deixa-nos uma imensa lição de vida e marcas que não se apagarão jamais.
Para sempre.

Mãe
alemvirtual a 12 de Setembro de 2007 às 18:32

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