existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
31
Jan 07
publicado por alemvirtual, às 10:22link do post | comentar

 

 

Nasci e cresci perto da confluência de dois rios. Cenário idílico de uma paisagem bucólica e romântica... O verde das margens concorre com a transparência das águas e o azul do céu.

Sou parte integrante desta natureza. Foi aqui que fui criança e me tornei mulher. Sentada no tapete fofo dos campos ou sob a copa de um salgueiro, ouvindo o rumorejar das águas, olhava o horizonte e deleitava-me. Deleite puro, feito de  sonhos criados e vividos em  breves instantes que desejava serem eternos... Nesse tempo, ainda não conhecia o gosto amargo dos sonhos destruídos, desvanecidos, usurpados pela amargura de uma existência sofrida. Afinal, quando se sonha, sonha-se em cores alegres como paleta de artista...

Eu sonhava e vivia.

Terra de poetas e pintores de ontem e de hoje...de gente simples, de sorrisos fáceis, de palavras amigas... Terra com história, terra de saberes e de sabores.

Foi na confluência dos rios que se cruzaram destinos...Unidos como estas águas claras, lançando-se num abraço inseparável, assim um olhar buscou o outro, as mãos alcançaram-se... entrelaçaram-se em silêncio.

Quebra-se o silêncio para dar testemunho de uma vida...tantas vezes é o silêncio que fala...

Palavras sempre poucas, sempre pobres perante a imensidão dos sentimentos. O coração sussura, afaga, acalenta, grita, angustia-se, desespera...O coração vive, mas nem sempre há palavras.

Há sonhos e palavras por desvendar. Para além do virtual continua alguém teimando em sonhar...

A.P.


publicado por alemvirtual, às 08:09link do post | comentar | ver comentários (2)

Hoje, levantei-me cedo. Cerca das 6h e 30 m. Normalmente, nunca durmo mais. Sentei-me ao pc e apeteceu-me falar. Falar, se bem que ninguém me escutasse. É meu costume... Gosto de falar comigo mesma ou escrever para ninguém. Muito (ou quase tudo) fica por verbalizar porque o pensamento é mais rápido que a linguagem, mesmo que oral....

 Escrevi mais ou menos estas palavras há algum tempo atrás...( metade, claro! porque mais que metade ficou apenas no pensamento....) Como quase tudo na vida, o que conta é o simbolismo. Assim simbolicamente, queria dizer umas palavras ao meu pai, mas envolvi-me no contexto actual, na guerra...sei lá em quê... Ele entende, talvez tu também entendas... Como não podia deixar de ser, habituei-me a partilhar tudo ( ou quase tudo) contigo....
 
Hoje, peguei num ramo de flores e sentei-me na campa do meu pai. Falei-lhe no lugar onde se encontram os restos do seu corpo...sei que ele não está ali...Tinha menos que a minha idade quando saiu de casa para nuna mais refgressar...Gostei de lá estar....
 
Uma noite tive um sonho. Creio que foi ainda antes de nascer. Aconchegada pelo calor do corpo da minha mãe, protegida no seu seio... Até aí, no seio materno, cresci à medida que os sonhos tomavam o lugar do peso do desenvolvimento que deveria ter... 
 
 

Vi, talvez a luz do sol ou o pálido reflexo da lua, no dia 16 de Maio. Mês das flores, mês em que se ora pela Paz, à rainha da Paz. Nasci, porém numa época de guerra. Não ultrapassava 1,800Kg ( a minha mãe à laia de desculpa, dizia que alimentava-se das lágrimas sofridas que durante três anos e meio derramou pelo meu pai e das saudades por esse marido ( morto ou vivo?) em terras de África. Alguém lhe chamou a “Guerra do Ultramar” ( mais tarde vim a saber muitos outros nomes de guerra; os porquês é que nunca cheguei a conhecer)...

 

Regressou. Sei que me agarrou ao colo e me abraçou chorando, até que a inocência dos meus três anitos e meio me fez fugir daquele "desconhecido"... Convivemos 7 anos, até que finalmente partiu para um lugar algures, acima ou abaixo das estrelas, não sei, mas sei que é um lugar de PAZ. As doenças que contraiu naquele paraíso verde e luxuriante, permitiram-lhe uma morte lenta, ao invés de tantos companheiros que de forma mais ou menos rápida foram ficando e tornando-se pó daquela terra, onde abunda o "leite e o mel", transformada pelos homens em terra sangrenta, faminta e sequiosa, sobretudo de Paz....

 
 

Hoje é Dia do Pai. Nunca esqueci o meu. Sei que muitos outros filhos e filhas não esquecem os seus pais (e agora mães) que partem em defesa de uma causa que não é a deles.

 
 

Nunca vivi sob os horrores da guerra. Nunca ouvi tiros nem rebentamentos, nem vi gente estropiada, nem gritos lancinantes de dor, nem conheço o cheiro da morte, mas esses sons e esses cheiros que não são de música nem de flores também não faziam nem fazem parte do meu sonho. Porém não posso dizer que a minha sociedade se tenha esquecido de me proporcionar essa experiência. Não. Essas experiências, verdadeiramente edificantes para os sonhos da alma humana, fazem parte do plano extra-curricular de umas quantas pessoas mais iluminadas....verdadeiros génios. Atrever-me-ia a dizer que mais genialmente inteligentes que os famosos cientistas do nosso tempo, mais sensíveis que os filósofos que estudámos, mais eloquentes que os nossos grandes poetas!!! Até que os grandes pintores que nos deslumbram com a sua arte.... Bahhhh.... que serão estes, comparados aos que planeiam, justificam e executam uma guerra?? Acaso já pensámos na sua soberba inteligência que lhes permite inventar " danos colaterais" (leia-se milhares de inocentes, cianças a sucumbirem à fome, à sede e às bombas), que alvejam "alvos estratégicos" com a precisão de um "ligeiro erro de cálculo" (leia-se escolas, hospitais e habitações)....Esses sim, são mesmo inteligentes e sonhadores...Sonham com um mundo de Paz, certamemte diferente da Paz dos meus sonhos...Os seus sonhos são diferentes dos meus porque, como poderia uma analfabeta nestas coisas de interesses económicos, de ódios e de jogos de poder entender os supremos desígnios desses seres tão geniais que se julgam no direito de decidir da vida e da morte, da Paz e da Guerra?... Mas, mesmo assim, e ainda assim, tenho a grata possíbilidade de me permitirem viver estas maravilhosas experiências. Tudo ao alcance de um clic, ou de uma leitura...Tudo em directo e a tempo e horas!

 
 

Agora, estas crianças não precisam de imaginar o que se passa na obscuridade verde de uma selva. Está tudo ali ao alcance dos seus olhos. Colorido e sonoro. Com direito a comentários. Com direito a saber o dia e a hora em que começa.

 
 

"Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida...." E foi assim, que eu nasci. Comandada por um sonho e o sonho tem comandado a minha vida. Continuo a acreditar que a Paz é possível, tal como nos meus sonhos. Continuo a acreditar que as crianças têm direito a serem crianças. Continuo a acreditar que o Homem deve ser livre. Livre pelo menos nos sonhos que acalenta. Os sonhos não podem ser roubados, nem destruídos ainda que deixemos o aconchego do seio materno. Continuo a ver em cada homem um irmão. A ver que por detrás de cada cor das bandeiras, por detrás de cada farda está uma PESSOA: um homem, um marido, um pai, um filho, um irmão....Falam línguas diferentes, mas no centro do peito, bate um coração da única cor possível: o vermelho do amor e do sangue ( fonte de vida e de morte)... Tal como o coração do meu pai sangrou, sangram também esses corações por um destino não escolhido, por uma família deixada, pelos filhos por nascer e pelos que já nasceram...Como diz o nosso hino "às armas, às armas!" Não são opções de vida, mas destinos impostos. Ditaduras de guerra....

 

O Dia do Pai, é também o dia de todos os sonhos...

 
 

As crianças sonham porque entendem as verdades facéis e simples. As crianças confiam, acreditam e esperam....

 
 

Em nome dos meus sonhos de criança, em nome de todos os sonhos de todas as crianças que não o puderam ser e daquela criança que habita em cada um de nós, eu vou continuar a sonhar.

 
 

Em nome de todos as vidas de pais, ceifadas pelo ódio de alguns, hoje, Dia do Pai, vou colocar um ramo de flores sobre o mármore frio onde o meu descansa.

 
 

E vou continuar a acreditar que só Deus é o autor de toda a criação, mas Ele não tem protagonismo de abertura de noticiários de rádio nem Tv, nem de manchetes nos jornais, nem de entrevistas... Também não precisa. A verdade pode ser ocultada mas não destruída, distorcida, mas não adulterada.

 
 

As crianças querem ter o direito de viverem nesta Terra que Deus lhes preparou e lhes deixou de herança: uma Terra Verde e Azul, onde conheçam a PAZ e o AMOR por isso confiam, acreditam e esperam....

A.P.

 


30
Jan 07
publicado por alemvirtual, às 18:53link do post | comentar




creio nos anjos que andam pelo mundo, creio na deusa com olhos de diamantes, creio em amores lunares com piano ao fundo, creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes; creio num engenho que falta mais fecundo de harmonizar as partes dissonantes, creio que tudo é eterno num segundo, creio num céu futuro que houve dantes, creio nos deuses de um astral mais puro, na flor humilde que se encosta ao muro, creio na carne que enfeitiça o além, creio no incrível, nas coisas assombrosas, na ocupação do mundo pelas rosas, creio que o amor tem asas de ouro. Amén.

Natália Correia

 

Este é um dos meus sonetos preferidos de Natália Correia. Reconheço-me ao lê-lo.
Sempre fiz dele uma "carta de apresentação". Não conseguiria encontrar melhor forma 
de "desnudar" a pessoa que está "além do virtual".
A.P.

02
Jan 07
publicado por alemvirtual, às 15:16link do post | comentar

No início de um novo ano, mantenho os velhos sonhos e acalento sonhos novos…

Novo ano, nova vida ou nova oportunidade de recomeçar, de emendar o menos bem e de melhorar o quase bom, sempre numa perspectiva de mudança, numa evolução qualitativa. Estes marcos, embora simbólicos, prestam-se a estabelecer limites, rupturas com velhos comportamentos, inícios de outras formas de ser e estar, assentes nas vertentes de pensar, sentir e agir, norteados por valores mais altruístas.
Por natureza, o ser humano deveria procurar a perfeição e a busca da felicidade. Ai daquele que não persegue esta utopia e do que perdeu a capacidade de sonhar. São os sonhos que alimentam a própria vida, lhe dão cor e adoçam o sabor, tanta vez amargo, da realidade.
Que sonhos para este novo ano? Principalmente nunca deixar de sonhar… se um sonho se desfaz, é urgente substituí-lo por outro. Sonhar sempre…sonhos enquanto pessoa, sonhos enquanto mulher, sonhos enquanto mãe….e… sonhos no novo papel (ainda não consolidado) de “atleta”. Pois é, quando me sentirei uma atleta? Será que toca algum sinal de alarme, num dia determinado, assinalando a entrada para o mundo dos atletas? Ser uma atleta, é sentir, pensar e agir como uma atleta? Como sentem, pensam e agem os atletas?
Que distância ainda me separa desse mundo mágico que pretendo descobrir…
Nas provas, a emoção é intensa e imensa…tudo absorvo com os “olhos do coração”. Esse meu mundo interior é quase tão rico e vasto quanto a moldura de uma corrida: variedade de paisagens, sons, cores, sorrisos, gracejos, suor …
Uma corrida é quase como uma peça de teatro em que os actores ensaiaram mais ou menos bem e assumem o seu papel.
Eu não ensaio bem o meu papel. Quero-o assumir, interiorizar e interpretar, mas… Ai as tentações do quotidiano! O cigarro que teimo em acender… A voz da razão, aconselha-me: “Não fumes! Se queres correr, não fumes!” Outra voz, ainda não sei bem de onde vem, diz-me: “É só mais este. Afinal, um cigarrito a mais ou a menos, em tantos anos de vício, não faz diferença!”
Depois vêm os treinos. A dificuldade em vencer a inércia… em deixar o aconchego do lar, o conforto de uma lareira acesa para enfrentar o vento gelado nas bochechas…
Por fim, vêm as dores. Dói-me tudo! Os joelhos que parecem ranger e estarem a ficar rígidos… as pernas que parecem presas e a não suportarem o peso do corpo… os pés que parecem chumbo…
Comecei há 4 meses a ser “aspirante” a atleta. Ainda não ultrapassei os 10 Km em provas, nem os 14 em treinos. Mas hei-de chegar aos 20!!! Km, claro! Quem me conhece pensa que isto é mais uma extravagância minha e estão cépticos quanto à minha persistência em aceder ao mundo da corrida.

Neste ano de 2007, tenho um sonho diferente…Ser pertença de um “mundo” diferente: um mundo verdadeiramente incluso, o mundo da corrida. Nas poucas vezes que o vislumbrei, vi pessoas felizes. Vi que o sucesso dos outros é vivido por todos. Vi que todos podem ganhar. Vi desconhecidos a ajudarem-se mutuamente, a sorrirem, a incentivarem os mais “fracos”, a correrem lado a lado pobres e ricos, cultos e menos cultos, brancos e negros, homens e mulheres… sem barreiras, sem violência, sem preconceitos, sem diferenças de espécie nenhuma. Ali, a única diferença é marcada pelo ritmo da passada.
É nesse mundo que eu quero viver!


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