existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
07
Jan 08
publicado por alemvirtual, às 13:26link do post | comentar

20050105_-_Chuva_-_Wlady

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Corri no último dia deste (para mim, terrível) ano de 2007. Pela manhã, fui ao Parque da Paz e, após uns momentos de recordaçõe dolorosas  naquelas pedras de entrada, onde a minha estrelinha se sentou uma última vez, lá fui eu. Fugia mais, do que corria. Fugia de tantos e tantos momentos de dor indescritível, dA corajosa abnegação, das súplicas caladas, do "Oh, mãe... oh, mãe..." antes de partir...queria fugir da vida que não desejei e sempre sonhei  diferente. Queria fugir do presente que se desenrola sobre um passado que nunca se esquecerá. Queria fugir da revolta e da angústia que invade o coração ao pensarmos "nunca mais". Queria aniquilar com as minhas próprias mãos a morte sempre vencedora.

Corri, sentindo-me estupidamente leve a correr. E quão pesado o coração...

 

E voltei a correr, dias depois, à chuva -  uma chuva miudinha e persistente -  numa pista deserta. Pérolas descidas do céu, beijos em forma de gotas tocavam, suavemente, o meu rosto. O mundo parecia ter desaparecido. Este mundo real, o horizonte próximo dos telhados e janelas fora engolido pela bruma difusa. Só o vermelho da pista sob os meus pés e o verde da relva em redor continuavam vivos e coloridos. Tudo o resto se perdeu no cinzento pardacento de um dia húmido e triste. Gostava da chuva, outrora. Terei que reaprender a gostar.

Voltarei a correr, as vezes que quiser. Não tenho um Plano de Treinos.  Não treino. Ninguém me diga "tens que treinar".  Corro quando quero. Corro sem motivo. Corro com outros motivos.

 

Cântico negro

 José Régio

 

 


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



"Terei que reaprender a gostar.
Voltarei a correr, as vezes que quiser. Não tenho um Plano de Treinos. Não treino. Ninguém me diga "tens que treinar". Corro quando quero. Corro sem motivo. Corro com outros motivos. "

Paula, onde é que eu já ouvi isto? O pior, são as vezes que não se quer.

E sabendo o que a corrida nos faz - o bem que nos faz - é pena e triste que não queiramos mais vezes.

O mal que nos fazemos, ou o bem que evitamos, ou simplesmente que não nos permitimos, aumenta cada vez que não corremos,

Pensa nisto, se achares que vale a pena...

Um beijinho
Ana


Ana Pereira a 9 de Janeiro de 2008 às 19:38

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