existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
09
Abr 08
publicado por alemvirtual, às 23:57link do post | comentar

Quando parece que tudo decorre dentro da normalidade que determinámos, que os dias se sucedem iguais e previsíveis e os gestos, os hábitos e os pensamentos obedecem rotineiros ao nosso autodeterminismo, acontece isto ou aquilo que quebra esta corrente.

Palavras, encontros ou acontecimentos insignificantes são eles que desencadeiam um novo rumo. Um rumo não planeado. Os porquês são respondidos. As causas encontradas. Os horizontes revelados.

 

Afinal, não há coincidências e o acaso não existe.

 

Para tanto, basta estarmos atentos. Ver e ouvir. Deixar a porta aberta. Tudo o resto se desenrolará naturalmente. Nem sempre encontramos felicidade. Há muitas passagens da vida que desejaríamos evitar. Porém, nunca estamos totalmente sós. Nunca estamos desamparados. Há sempre alguém que nos guia.

 

Depois de um dia normal recebi um telefonema. Um pequeno "nada" que pode interferir em muito. Da troca inicial de palavras ao desafio "anda daí" não passaram mais que uns breves segundos. E ela veio.

Abri-lhe a porta sorridente e ouvi o comentário "não parece estares em baixo".

Quando se afirma bem-estar é inevitável que a sensação de bem-estar ocorra (mesmo tenuemente). E o bem-estar é algo que se propaga e contagia. A energia positiva atrai mais energia positiva. Pelo menos, é bom sentirmos que os outros estão bem na nossa companhia.

 

E este jantar de improviso evitou que ouvisse uma mensagem. Não assisti a uma determinada reportagem (onde o IPO estava envolvido) que, alguém de quem gosto muito, recomendou, via sms. Soube agora que, mal tinha enviado a mensagem, se tinha arrependido. Afinal, não tinha sido boa idéia eu assistir.

 

Ainda por causa deste encontro de amigas vi-me envolvida, de novo, em planos e projectos de corridas. Esta noite recebi três convites para participar em provas.

 

O que farei neste ou naquele dia, não sei. Se fiz planos e os tenciono cumprir, não sei. Mas sei que não há acasos. Sei que vou continuar vivendo de coração aberto e deixar a vida acontecer.  Sei, também, que me cabe a mim encontrar o sítio certo para encaixar estas peças do puzzle da existência. Atribuir-lhes significado. E sei sobretudo que não estou só. Existe alguém que vela por mim e me dá a mão sempre que caio e, certamente, outras vezes em que não chego a cair. Por isso, confio, acredito e espero. Espero que os "acasos" da vida justifiquem a razão da própria vida; de uma vida que não compreendo.

 

 

No dia 9 de Outubro tinha escrito isto...

Há algum tempo atrás- parece ter decorrido uma eternidade, mas passaram apenas umas semanas- quando a minha filha trocou o Instituto Português de Oncologia pelo Hospital de Nª Srª do Rosário no Barreiro, trouxe-me um papel escrito que tinha retirado de uma caixinha, onde se podia ler "Pode levar". Estava na Unidade de Quimioterapia. Entregou-me esse papel, dizendo-me apenas: "Acho que vais gostar de ler".

Desde logo, pensei transcrever as palavras que ele continha, mas o tempo (Ah! esse maldito tempo que não se agarra, não retrocede e não pára) não permitiu fazê-lo antes.

 

Tudo tem um propósito. Hoje, ao transcrevê-las e, ao relê-las antes de o fazer, verifico como tudo o que dizem é a cópia fiel da degradação física dos últimos tempos da minha filha. A única diferença é a longevidade daquele que as escreveu, contrastando com a sua "meninice." A grandeza do seu autor, só é possível comparar à suprema grandiosidade da minha filha.

 

 

 

"Quando parece que nada mais resta

Admira-me ver tantas pessoas espantadas com a calma e que dou provas, neste estado miserável a que me reduziu a doença.

Perdi o uso das pernas, dos braços, das mãos e estou quase cego e mudo. Não poderei mais andar nem apertar a mão de um amigo, nem tão pouco posso escrever o meu nome. Não posso ler e quase não consigo conversar e ditar...

Mas é preciso ter em conta o que me resta.

É bem certo que as coisas e as pessoas me aparecem como formas vagas e imprecisas, mas eu posso gozar ainda a felicidade que me traz a luz do sol. (*)

Eu posso ainda adivinhar, quando as aproximo muito perto do meu olho direito(**), as manchas de cor das flores ou os traços de um rosto...

E tudo isso não é nada em comparação com os dons divinos que Deus permitiu que eu gozasse.

Através das lutas de todos os dias eu pude salvarguardar em mim a fé, a inteligência, a memória, a imaginação, a paixão da meditação e do raciocínio, e esta luz interior que se chama intuição ou inspiração...

A juventude reconhece-se em três sinais essenciais: o desejo de amar, a curiosidade intelectual e o espírito de luta. Apesar da minha idade e dos meus sofrimentos, sinto em mim uma necessidade irreprimível de amar e ser amado, experimento um desejo insaciável de novidades em todos os domínios do saber e da arte, e não fujo à polémica e ao ataque, quando se trata da defesa de valores supremos.

Tenho a ousadia de afirmar que, mesmo hoje, sinto-me conduzido, neste mar imenso da vida, pela grande maré da juventude..."

 

Giovani Papini

Capelania do HNSR, SA

 

 

(*) A única luz do sol que ela sentia era a filtrada pelos vidros, no piso 0, no pequeno corredor para a ala da radioterapia. E que felicidade quando lá passava na sua cama de rodinhas!! Eram cerca de 4 metros saboreados com um deleite que comovia...Nunca mais sentiu o vento, nem os raios de sol...

(**) O dela, o único com alguma visão era precisamente o direito


 

Quanta coincidência, filha...

 


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