existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
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Abr 08
publicado por alemvirtual, às 14:03link do post | comentar

 

Ouvia a chuva furiosa que caía.

 

As bátegas fustigavam a janela do quarto. O vento uivava através das frestas da porta. Deitada, encolhida sobre si mesma, sentia o apelo da corrida. Era um chamamento suave, uma voz cativante. Mas uma outra voz sobrepunha-se e ecoava mais distintamente na sua alma. Para quê?

 

- Não vais à corrida? - perguntaram-lhe.

- Não. Corria porque tinha motivo. Agora, não  tenho motivo, nem para viver.

 

Há obstáculos a vencer. Barreiras erguidas que minam a vontade. Como a ferrugem corrói o metal.

E ficou ali.

 

 

Na véspera, muitas horas antes do anoitecer, já o seu equipamento, cuidadosamente dobrado, tinha sido preparado. As meias preferidas, gastas pelo uso, mereceram alguns sorrisos. Nada disto seria preciso na manhã seguinte. Não lhe iria dar uso e as peças seriam de novo guardadas na gaveta.

 

Outra vez a voz. Agora num sussurro diferente. Há motivo. Tens motivos. Ainda não é tarde demais.

 

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". E as vontades mudam, mais rápidas que o próprio tempo.

 

Cerrou os olhos e juntou-se a eles na praia. Afinal, era lá que queria estar, embora negasse essa vontade. A negação é muitas vezes o nosso refúgio.

Quase sentia o alvoroço reinante, antes do tiro de partida. Quase sentia o vento cantante na crista das ondas. Encrespando-as. Libertando gotículas salgadas acima da espuma da água. Quase sentia o vaivém da água salgada lançando-se moribunda na areia da praia. Quase ouvia o namoro em murmúrios plangentes das vagas do mar nas dunas da praia.

Na face molhada das lágrimas caídas, a chuva lavava os sulcos deixados. 

 

Confundiu-se com um bando de gaivotas e voou ao longo da costa. Esta já era uma experiência conhecida. No ano passado, o mesmo bando tinha-a acolhido. Desta vez, porém, voava mais alto, uma gaivota diferente. O ano passado, tinha-a vislumbrado, por breves instantes. Pensara ter delirado. Tinha-a visto num relance. Mas não. Ela lá estava, ora planando acima do bando, ora perdendo-se de vista na linha do horizonte. Uma gaivota perdida e uma gaivota que não era uma gaivota. Estranha invasão no bando de autênticas gaivotas. Todas gaivotas reais. Duas, para além do tangível, do voo matinal, empreendido todos os dias, daquele bando de penas brancas e pretas.  

Quase podia correr na areia molhada da praia. Fustigada pelo vento. Aquecida pelo sol, espreitando por entre clareiras de nuvens. Encharcada pela fúria diluviana de súbitos caprichos da natureza. A inconstância desta manhã de domingo. Alternando entre a luz e a escuridão. Como ela, ora voando no céu, ora correndo na praia.

Quase podia ter sido assim. Quase podia ter acontecido.

Há quases...

 

Quase podia ter sido.

 

Pouco a pouco, a outra voz impõe-se. Não grita. Não se cansa. Mas persiste.

Cala-se, mais uma vez, a voz do desânimo. Amordaça-se por algum tempo. O tempo pode ser breve...A outra venceu. Tem vencido sempre. Está de atalaia. Procura outras palavras e novas razões para vencer com os mesmos motivos.

 

Quase podia ter corrido. Haverá um outro domingo. A areia ou o asfalto; a serra ou os vales estarão sempre à sua espera. São pacientes. O tempo não importa. E os motivos permanecem.

 

 

O acessório não precisa existir. E o essencial existe. Essa "essência" palavra alguma a pode roubar.


Paula, talvez devesse dizer o que seria de esperar: tens de ter força, és uma mulher forte, a tua filha quer que a mãe seja feliz, luta por isso, seja lá a correr ou a fazer outra coisa qualquer, etc etc.

E digo-te, pois são palavras que sinto, mas hoje queria só dizer-te que em relação à frase que escreveste:

"...sentia o apelo da corrida. Era um chamamento suave, uma voz cativante. Mas uma outra voz sobrepunha-se e ecoava mais distintamente na sua alma. Para quê? "

Nessa noite, véspera da corrida, senti o mesmo e à interrogação que colocas... não encontrei resposta...

E... não fui à corrida.

Um beijo Paula
Ana
Ana Pereira a 22 de Abril de 2008 às 00:01

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