existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
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Out 08
publicado por alemvirtual, às 21:53link do post | comentar

foto retirada de: http://www.trabas.de/bilder/sesimbra.jpg

 

Sesimbra

 

Sesimbra faz parte da bagagem de recordações da infância. Daquele tempo de menina e moça, aluna de bata branca de uma escola caiada de branco, numa vila branca do interior do país. Naquele tempo em que as "viagens de estudo" dos tempos modernos, se chamavam simplesmente excursões.

Foram tempos em que as crianças vibravam com a perspectiva de um "passeio". Em que recebia 50 escudos e com eles comprava gelados, postais ilustrados e lembranças para o pai, a mãe e a irmã. Muitas vezes, ainda voltava com umas moedas na carteira. Voltava sobretudo com um cansaço feliz e a euforia da descoberta de uma terra maravilhosa.

Foi o tempo em que todos os tempos pareciam felizes.

Mesmo quando a bata branca da escola primária deu lugar à bata preta do colégio, as excursões continuaram a ser momentos mágicos de risos e aventura. 

Nada se comparava à excitação da véspera da partida e à doçura da liberdade sentida no avançar lento do autocarro.

Há muitos (já posso repetir), muitos anos atrás, as crianças ainda tinham um mundo imenso para descobrir. E foi pelas mãos das professoras que esse mundo se tornou um pouco mais pequeno. Eram elas que destruíam as fronteiras do isolamento e deslumbravam os olhares gaiatos em cada destino conquistado.

Acho que só fazíamos uma excursão por ano. Era sempre uma festa. Uma festa simples. Naquele tempo era fácil ser simples e mais fácil ainda mostrar um mundo sempre novo.

Sesimbra foi um dos destinos, num ano qualquer, impossível de precisar no tempo. Porém, a lembrança do vento frio do mar, o cheiro a maresia, a costa recortada continuam nítidas como nesse final de manhã de sol forte e vento agreste. Como se fosse ontem. Como se tivesse recuado no tempo.

Esse tempo, foi o tempo da recolha dos tesouros, da riqueza acumulada nos bolsos imaculados da bata que se vestia. Bebíamos as palavras da professora como plantas sôfregas por uma gota de água. E a professora mitigava a sede do saber. "E depois, Srª Professora?" "E o que há lá?" "Ahhh...que lindo, Srª Professora". E os olhos curiosos das crianças pasmavam perante a sabedoria daquela senhora de cabelo loiro e fato escuro.

 

Voltei a muitos lugares visitados em criança. E voltei algumas vezes no papel de professora. Agora, não é fácil deslumbrar as crianças. Ou elas já não se deixam deslumbrar. Talvez sejam crianças mais tristes. É urgente descobrir um mundo novo para lhes oferecer. "Oh...vamos aí...? - e percebe-se uma ponta de desdém, ou decepção. "Já conheço. Não vou". "Não me interessa, não quero ir". E os autocarros partem quase vazios, ou com rostos entediados. (e o "destino" que importa não é a praia, nem o museu, nem a feira com os carrinhos de choque: é a vida. Uma vida "pré-comprada" no pronto a vestir, na hamburgaria, na consola...)

 

Continuamente inventamos "coisas novas", mas continuamos presas às "coisas velhas" do passado. Muitas para acalentar no baú das lembranças e partilhar com carinho. Outras para deitar no lixo como farrapo poído e imprestável. E com tecidos velhos, tecemos em cada dia um vestido novo. É essa a nossa missão.

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

 

Continuamente vemos novidades,

diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem – se algum houve – as saudades.

 

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

 

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.

 

Luís de Camões

 

No Domingo, vou voltar a Sesimbra. E vou tentar descobrir a magia da primeira vez. Talvez se tenha escondido na areia da praia, ou nas copas verdes sobranceiras ao mar. Vou correr. E vou estar atenta, não vá eu, distraída passar por ela e não a ver. Se não for eu a descobri-la, pode ser que seja ela a chamar por mim...

 

 


olá! Gostei muito da sua descrição. Lindo texto :)! As crianças, hoje em dia passeiam tanto ao fim de semana, que depois já não querem ir outra vez ao mesmo local. Boa viagem até Sesimbra! O meu primeiro ano foi feito em Sesimbra, a minha primeira festa de anos e em 1998 fui a Sesimbra outra vez, dar um passeio com os meus pais. Boa viagem e divirta-se! beijo e bom fim de semana!
nuno a 4 de Outubro de 2008 às 13:35

As crianças, Paula são os que nós adultos fizemos (e fazemos) delas.

A começar e a mais de 80% em casa, depois os professores e formadores e por fim a sociedade adulta em geral. são estes os que fazem (fizeram) as crianças e jovens que hoje temos.

Cada um pode fazer pouco, mas se cada um fizer o "pouco" que lhe compete, as crianças continuarão com esse bhilho nos olhos, ávidos de saber. Porque há coisas que nunca mudam.

Ou sou eu que tenho uma filha muito especial, ou talvez seja uma mãe "anormal", mas ainda vejo esse brilho nos ohos da minha filha, nas véperas das visitas de estudo, nas visitas que nós mesmas fazemos aos lugares, em busca de conheceimento, de histórias, de saber. O interesse, a descoberta, dela, é equiparada à criança que eu e tu (e certamente muitos mais )fomos há quase 40 anos atrás. Há coisas que não mudam. E é bom que assim seja.

Uma boa corrida em Sesimbra com todas as coisas boas que lá viverás no domingo. Boa prova Paula e um beijinho

Ana Pereira




Ana Pereira a 4 de Outubro de 2008 às 23:48

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