existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
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Out 08
publicado por alemvirtual, às 09:43link do post | comentar

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No fim da 1ª volta

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Quase a chegar à Meta

 

Tal como imaginava esta foi uma prova muito bonita. Bonito o seu percurso, o dia de sol (demasiado quente), as águas do mar espelhadas de um azul intenso, concorrendo com o céu limpído de um azul ainda mais intenso. As ruas emanavam uma claridade ofuscante. O vento tinha adormecido na sombra de um pinheiro. Tudo era luz e cor.

Havia também o cheiro. Uma mistura de cheiros tão intensa como as cores. O acre salgado do mar, trazido até nós pela maresia, a caruma ressequida dos pinheiros, o cheiro a peixe fresco e o cheiro convidativo daqueles que douravam nas brasas dos grelhadores.

 

Sesimbra podia ser chamada de Princesa do Mar. Estava quase perfeita. Esta jóia à "beira-mar plantada" foi assaltada por um bando de corredores, como antes foi assaltada pelos bandos de gaivotas. Essas ficaram, mesmo depois de termos partido. Sei que ainda lá estão.

Enquanto houver mar e um pedaço de areia, haverá um bando de gaivotas.

Enquanto houver quem goste de correr haverá alegria, suor e cansaço pelas ruas.

 

Não me senti muito feliz com esta corrida. Nem antes, nem durante, nem depois de correr.

Sei que a culpa não é inteiramente da condição física. Mas senti-me como se um juíz apontasse o dedo e pronunciasse: "culpada".

Parti do fundo do pelotão. Talvez um pouco depressa demais.

Ao 3º ou 4º Km pensei em desistir. Como fazê-lo com o meu amigo António a acompanhar-me passo a passo?

Foi muito difícil até ao 7º Km. Sentia dores estranhas e um calor ainda mais estranho. Um cansaço fora do comum. Só queria mesmo sair dali, decepcionada com quase tudo, sobretudo comigo mesma. A liberdade de opção nem sempre é possível e real (será alguma vez?). A amizade corria a meu lado. Aquela que não vai nem atrás nem à frente, mas ao lado. Estendendo a mão. Murmurando palavras ternas. Lembrando que somos capazes. Por isso, continuei a correr. Devagar, muito devagar. Depois ganhei força e correria para além da meta, para além do mar e para além da vida.

Devaneios de quem se ilude com coisas simples. A vida é uma manta de retalhos. Alguns, pensamos serem de bom tecido. Mas o linho corroeu-se. Veio a traça e não resistiu. Guardou-se e amareleceu num canto escuro do armário. Não se mostra e ganha bafio. Quando chegar o dia da festa (adia-se a vida sempre para "amanhã", para a ocasião especial, sem se perceber que a vida é cada instante que se vive), quando chegar o dia ansiado e sempre adiado e se procure a manta para enfeitar a varanda, a frustração será grande. A relíquia, esse tesouro guardado deixou de existir.

Estranhas palavras sobre corrida. Mas há muitas corridas.

Também existem as corridas projectadas, apenas "porque sim", "porque quero". Essas, normalmente não as faço.

Desde o primeiro passo de corrida, percebi que não importa quanto corremos, nem porque corremos, mas como corremos.

Correr pode ser uma catarse, como escrever. Verbalizar o que nos causa sofrimento, é sem dúvida tirar força aos monstros que nos assustam.

 

Em Sesimbra fiz 59 minutos e 28 segundos.

 

 


Que bonito, Ana Paula! Um texto que, por caso, se aplicou à Corrida de Sesimbra, mas que seviria a qualquer outra. E as reflexões que faz, de tão verdadeiras, chamam-nos a atenção para a importância de cada momento, pois a vida não é mais que o somatório de todos eles. É o momento presente o único que tem sentido, pois é o único que vivemos.
As expectativas que temos, quantas vezes se esvaem?! Lembrei-me de "Os pratos da vovó", que não sei se leu, mas que recomendo, no "Palavras de Corredor" do nosso amigo António Almeida .
Correr é muito mais que andar depressa. É por isso que há tanta gente a correr sabendo que são tão poucos os que podem chegar primeiro.
Beijinho.
Fernando Andrade
Anónimo a 8 de Outubro de 2008 às 14:04

Fernando

Li, sim. Uma "lição" de vida e de como viver a vida.
Gostei imenso e, lembro-me, fiquei emocionada com os "Pratos da Vovó"...como retrata, tão bem a nossa vida e a nossa postura perante a vida...
Um beijinho grande e obrigada. Obrigada por ter compreendido aquilo que queria dizer. Tantas vezes faltam palavras para expressar sentimentos.
alemvirtual a 8 de Outubro de 2008 às 23:33

olá! Com Amigos, fica tudo mais fácil, não é? Continuação de uma boa semana e continuação de boas corridas! E enquanto puder, corra sempre. beijos
nuno a 9 de Outubro de 2008 às 16:10

Olá Ana Paula

também muito bonito é o seu relato da prova...que teve tempo a mais.
Ana Paula no mesmo dia e pela mesma hora também corri mais de 3 horas, os quilómetros corridos esses não interessam, provavelmente o meu treino teve quilómetros a menos.
Curiosamente tive amizade durante o mesmo, tal como a Ana Paula na sua prova a sentiu através do António Pereira (que já tive o prazer de conhecer pessoalmente nas Lampas).
Agradeço as suas simpáticas "palavras de corredora" lá no blog.
Continuação de boas corridas.
Bjs e um bom fim-de-semana do "vizinho",
António Almeida

António Almeida a 10 de Outubro de 2008 às 13:05

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