existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
16
Mar 09
publicado por alemvirtual, às 10:10link do post | comentar

 

Histórias de amizade

 

As histórias de amizade são simples, como simples é a própria amizade. Não quer nada em troca, dá-se gratuitamente e quanto mais se dá, porventura mais se recebe. Alimenta-se nesta reciprocidade de dar e receber. Cresci a ouvir a minha mãe dizer "Quanto mais dou, mais tenho para dar".

 

Tenho um amigo. Queria falar deste amigo. Nunca lhe dei nada para além de uns quantos elogios sentidos. Também nunca falámos muito. As poucas vezez em que estamos juntos, a linguagem mais usada é a do silêncio ou das brincadeiras. Mas entendemo-nos. E partilhamos aquilo que somos um com o outro.

 

Um amigo não anda atrás nem à frente, mas ao lado. Pronto a estender a mão. É assim este meu amigo. Literalmente assim. Corre comigo. Vai adiante apenas quando ir adiante significa ajuda. Fica atrás quando o estar atrás significa protecção. Quase sempre está ao lado. Atento, carinhoso, solícito.

 

 

As lezírias são terras férteis, intensas...sente-se o aroma dos campos húmidos e do lodo das margens do rio. Pessoas e animais são puros, às vezes rudes. Lidam com a vida e a morte com a mesma frontalidade.

 

Nunca pensei correr num espaço aberto como as lezírias. Sou ribatejana, mas tenho pavor de touros. Abomino as touradas e a minha repulsa é tão grande pelo sofrimento gratuito dos animais quão grande é o medo irracional que tenho destas montanhas de força bruta.

 

Este domingo, enfrentei o medo e milagrosamente nem um único touro à vista. Campos adentro, um sol impiedoso e "guarda d´honra" de campinos, firmes e hirtos no seu porte altivo em cima dos cavalos. Um bonito enquadramento para uns quinze quilómetros de liberdade.

 

A sensação de liberdade que a corrida me transmite foi, pouco mais que a meio da prova, substituída pela opressão de querer e não conseguir, de perceber que muitas vezes, em tantas situações da nossa vida, querer não basta. Estamos acorrentados a um corpo que não acompanha a nossa alma, a vontade nascida do coração que teima em bater num compasso maior que a orquestra permite. É-se prisioneiro das nossas próprias amarras. Por isso, só seremos verdadeiramente livres e felizes quando, libertados da escravidão da carne, formos apenas a essência e o sopro do nosso espírito.

 

Não fora o meu amigo ter-me-ia lançado numa vala qualquer como animal moribundo. 

 

Tínhamos partido de trás, mesmo do fundo do pelotão. Estávamos a conseguir um tempo bastante razoável. Ao quilómetro oitavo fiquei exausta. Senti a vertigem da quebra de tensão. As reservas de açúcar esgotadas e eu a afundar-me num poço sem fundo. Arrastei-me num suposto passo de corrida...cada vez mais fraco, mais fraco...até andar e depois parar. Agarrei a estrelinha azul que trazia ao peito e pensei de, desta vez, não acabaria a prova. Estava para além das minhas forças.

(Ele nunca me abandonou. Os amigos são assim. Ficam quando podiam ir embora. Quando ir seria o caminho mais fácil...)

 

Se tu podes, vamos os dois, se não podes, ficamos os dois. E foi nesse momento que a amizade escreveu mais um dos seus milagres. Uns quadradinhos de marmelada, umas palavras de incentivo e um pequeno descanso, permitiram-me recuperar o suficiente para correr os restantes 5 Km. Subimos a ponte, entrámos nas ruas apinhadas de gente e senti-me quase capaz de fazer outra corrida.

 

Qual a importância disso? - poderão perguntar. Todos os dias há gente que não chega ao fim da sua corrida... Pois há. Um dia, também eu ficarei pelo caminho. Mas levarei uma vida recheada de tesouros de amizade. É a caridade que brota do coração o sentido da verdadeira amizade. Abnegação, esquecer-se de si porque o Amigo é que importa. São pequenos nadas que escrevem grandes histórias. A minha vida nunca foi um livro em branco. Tenho amigos que me ajudam escrevem páginas e páginas. Algumas têm poucas linhas, mas nem por isso menos importância. 

Obrigada António.

 

Sem ti, não teria corrido 1h 36 minutos na Corrida das Lezírias.

 

 As fotos que se seguem são propriedade da AMMA  - http://www.ammamagazine.com/Fotos/


Eu vi-te ao longe, no momento que ia Gritar, deixei ter ver... pena, parabéns.
carlos lopes a 16 de Março de 2009 às 11:15

Olá Ana Paula
parabéns por este belo post e pela merecida e sentida homenagem ao seu amigo António Pereira.
Pena que não vos vi nas Lezírias.
Bjs,
António
António Almeida a 16 de Março de 2009 às 16:19

Olá Paula

Pois gostei muito de te ver, e tenho alguma pena que só te tenha ficado à frente por de facto te estares a sentir menos bem... mas enfim, assim "a gente" cá ande, para ainda te ganhar de forma "mais justa", ou perder, porque isso afinal como tu e eu bem sabemos, são insignificantes pormenores...

"Agora, agora... sou um Cavalo de Corrida!!!!!!"

UHF

Ai ai, do que tu me foste lembrar...velhos e bons tempos..

Até breve

Ana


Ana Pereira a 16 de Março de 2009 às 20:33

Como sempre, um lindo texto, Paula. E este testemunho de amizade do António é bem merecido, sim senhor
.
Parabéns e venha a próxima.
Beijinho
FA
Fernando Andrade a 16 de Março de 2009 às 22:27

Olá Ana Paula!
Muita coisa poderia dizer em relação ao que senti ao ler este fantástico Post.
Felicito a Ana Paula pela coragem e determinação.
Admiro o António Pereira pela cooperação e amizade para com os seus amigos.
Ainda hoje passei em Constância a treinar e lembrei-me da Ana Paula.
Que a estrela azul a acompanhe e lhe dê coragem nos momentos de dificuldade.
Luís Mota
Luís Mota a 17 de Março de 2009 às 20:02

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