existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
08
Jul 09
publicado por alemvirtual, às 09:10link do post | comentar

É quando a praia se esvazia de pessoas e enche de gaivotas, o sol descendo no horizonte, torna metálica a superfície do mar e o azul celeste se transforma numa paleta de matizes indescritíveis que chega a hora da magia. Ontem, quis estar lá quando chegasse esta hora mágica.

Há muito tempo que não corria. Há mais tempo ainda que não corria na praia. E há muito, muito tempo que não corria em paz, sozinha na areia.

Era tudo dourado ao redor. Lembra filmes de desenhos animados em que uma fada agita a varinha de condão desencadeando uma chuva de estrelinhas brilhantes e grãos dourados. É assim que a praia fica ao entardecer. Cores mágicas. Sons mágicos. E a magia da paz da corrida junto ao mar.

 

Aqui e ali bandos de gaivotas agrupam-se na areia. Formam círculos. Outras voam graciosamente junto à água, gráceis como bailarinas.  Há quem manobre acrobaticamente as asas subindo repentinamente para descer de forma ainda mais imprevista. São as trapezistas. Algumas esperam quietas, pacientemente, não sei bem o quê. Qualquer coisa que o bando decida, ou então que o nascer do novo dia as faça cumprir as rotinas que não questionam. Poucas aventuram-se para mais para longe, andando de forma ondulante, olhos confiantes, fixos na imensidão que se estende à sua frente e no infinito ao qual voltam costas. O horizonte fica mais perto e o mundo mais pequeno quando abandonam o ar.  Decidem caminhar na areia macia, enfrentando as dificuldades. Avançam a custo, desprezando a leveza do voo. São as que rasgam caminhos, as temerárias, as conquistadoras.

Procurei com o olhar aquelas que mais aprecio. Sei que encontro sempre uma ou duas. As marginais. As que se esquecem que uns quantos peixes são deixados na areia pelas redes, que as ondas se revoltam, que o sol perde o brilho e que a noite avança vinda não se sabe de onde. Esquecem isso tudo porque tudo isso  já não chega. São as que esperam mais. Sempre mais. Não basta o céu azul. Não basta a imensidão do mar.

Na hora mágica da praia quando todas se aquietam estas agitam-se. Interiormente. Em momentos de busca desesperada dos porquês, de revolta contra a monotonia plácida dos dias, lançam-se em voos picados e abruptos. Sem rumo. Perseguindo sonhos que se desfazem como as nuvens que se dissipam ao redor. Outras vezes, estão sós. Paradas. Diferentes. Apenas uma gaivota (diferente) sobre a areia.

 

Sob os meus pés, quebram-se pequenas conchas. Crac...crac...crac... Corro junto à água, na areia molhada que ainda borbulha de uma vida que não vejo, mas adivinho. Tenho vontade de me despir e entrar na água. Adoro a sensação de fescura. Sinto-me parte do oceano. Como me sinto parte do bando que deixei para trás.

 

Agora a praia está deserta. Ao longe o horizonte fica difuso. Sem contornos definidos. Espuma branca, azul do céu, areia dourada, dunas e pontos verdes. Tudo se confunde. Este é o destino que tracei. O percurso já antigo, tantas vezes percorrido, testemunha silenciosa dos dias que vão passando. Passadas mais fáceis. Outras difíceis. Momentos de desistência e de sentar na areia. Paragens de cansaço. Levantar com alento. Sorrir com sorrisos de alma. Voltar a parar. Deixar que o sal das lágrimas se confunda com o salgado das ondas.

E uma pergunta constante. Como se soprada pelo vento que varre o mar: Porquê? Porquê? E continuo a correr sem olhar para trás. Não preciso. Passado e presente confundem-se como este horizonte que se afasta à medida que me aproximo.

 

Volto antes que a noite cubra o mar. Faça dele o abismo escuro, temível no qual se afundam esperanças e escondem monstros e temores.

 

A hora mágica passou. Amanhã haverá outra. Todos os dias, a magia se repete. Para mim, ao entardecer. Mas a magia acontece a qualquer hora. Basta querer.

 

 


Ainda bem que encontraste a paz...
lelapin2000 a 8 de Julho de 2009 às 22:02

Olá amiga Paula.
Gostei muito de ler este seu post. Como está carregado de sentido, como sempre, envio-lhe um pequeno têxto, cuja autoria desconheço, e que achei ser uma forma diferente de situar a palavra e o sentido de saudade.
Um beijinho do Pára.

Gosto de Saudades
Não sei se saudades tem cor.
Dizem que sim
O que eu sei é que ela tem forma
Tem gosto. Tem cheiro e peso também.
E, acreditem, ela tem asas!
Se não, como nos transportaria
Tantas vezes a lugares
Tão distantes?
E sei ainda que ela se agiganta
Quando mais tentamos
Diminuí-la.
Sei que ela dói de dor
Intensa e sem remédio
Se não fosse ela, não sei se teríamos consciência
Do tamanho da importância
Das pessoas para gente
Porque quando amamos alguém
A saudades já chega por antecipação, sorrateira
Disfarçada de algo que não conseguimos decifrar
É aquela dor fininha
De não sei o que, a angústia boba que nos invade só de imaginar
A separação
E a gente fica meio sem saber
O que fazer
Mas é assim...
É uma dor que gostamos
De sentir, um sabor que
Queremos provar, é algo
Que não sabemos explicar
Mas é quase palpável
É amor disfarçado de muita coisa
São emoções guardadas bem lá no fundo
Saudades... Do que foi
E do que vai ser
Saudades
Que nos acompanha para
Diminuir a solidão
E que nos mostra, sobretudo
Que estamos vivos.
Aprendi ainda que saudades não mata.
É só quase
A gente pensa que vai morrer
Mas sobrevive sempre
Porque ela traz escondidinha nela uma outra coisa
Que chamamos de esperança
Que nos ajuda a caminhar
Porque saudades, como o amor, não é cega
Saudades vê mais além.

joaquim adelino a 11 de Julho de 2009 às 04:07

Olá Ana Paula
parabéns pelo modo como escreve, muito bonito como sempre.
Também gosto muito do entardecer.
Uma pequena história (especiamente para si):
ano de 2003, mês de Julho, todos os dias o homem ao fim da tarde ia correr para o parque da paz, todos os dias terminava já noite, pouco mais restava ao homem que correr e esperar um milagre...que aconteceu.
Desse mês de Julho fica a recordação de belos entardeceres.
Outras histórias o homem tem para contar, mais antigas, recordações dolorosas, um dia quem sabe o homem ganha coragem.
Beijinho Paula.
O homem que corre
António Almeida a 11 de Julho de 2009 às 17:25

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