existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
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Jul 09
publicado por alemvirtual, às 17:40link do post | comentar

 

 

           Que pena, não haver outro registo aromático além da memória dos nossos sentidos.

  

Na margem norte do Tejo, encastrada entre margens verdejantes e campos perfumados, ornados das roxas flores do rosmaninho, salpicado de giestas e estevas, surge a vila onde reside a minha mãe. Estes campos e montes que num passado recente foram solo fértil de pinheiros robustos e seculares são, hoje, túmulo dessa vida abundante. Apenas braços descarnados, inertes, secos, da cor negra do queimado que se erguem em direcção ao céu. O verde das copas não existe, porque não existem copas. Resta o verde que cobre o chão. Este chão do meu país que de vida renovada se teima em cobrir, contra a mão de fogo que o destrói, contra o destino que lhe corrói as entranhas, resiste. Meu país e estes meus campos resistem...

 

Cheguei. Era a manhã do dia em que se celebra a Revolução dos Cravos. Sinto o pulsar do coração ribatejano. Meu coração também bate, neste compasso especial, neste dia especial, como há mais de trinta anos atrás bateu. Bateu num nervoso infantil. Pressentiu, mais que compreendeu. Hoje, compreende. Tenta não esquecer...

Olho a placa "Polígono de Tancos" , envelhecida e firme, tal como firme foi a coragem dos que daqui partiram e firmes serão as minhas recordações ainda que envelhecidas....

Um sinal de mensagem no telemóvel, desperta-me do torpor em que mergulhei. "Saudações democráticas"- leio.

 

Minha mãe, idosa, curvada ao peso dos anos e da vida atribulada e sofrida, parece nem me reconhecer quando entro.

 - Ah! És tu, minha querida! -  e é tudo quanto consegue dizer porque a emoção lhe prende a voz. Prende-me também num abraço interminável...Ali permanecemos, juntas, envoltas no aroma de flor de laranjeira que, do quintal, invade a casa. Chilreiam os pardais. Os pardais que ela alimenta diariamente com pão molhado (como se não lhes bastasse o alimento farto que retiram do quintal).

- São a minha companhia - repete.

 

O chão cobre-se de um tapete perfumado de flor de laranjeira. Passeio sobre ele. Agitados os ramos por alguns golpes de vento, lançam sobre mim uma chuva imensa de flores brancas. Inspiro profundamente este aroma inigualável.

Desce sobre mim uma chuva de pétalas.

Flor de laranjeira...

 

As árvores oferecem os  frutos carnudos aos nossos olhos...alguns nos ramos mais altos, parecem convidar a subir....

Eu subo. Trepo um pouco pelo tronco. Agarro-me a um ramo mais forte e estico-me para apanhar uma laranja enorme...sinto-me como uma princesa dentro de um castelo.

E aos meus ouvidos parece chegar uma voz, suave como num sussurro:" És a minha princesa". Essa voz que se silenciou há tantos anos quantos os que nasceu a voz da liberdade.

Meu país, meu castelo de flor de laranjeira...

Que saudade.

 


Parece que estava a viver o momento tal o realismo da narrativa.
Um abraço
lelapin2000 a 14 de Julho de 2009 às 22:14

Olá Ana Paula
muito belo, obrigado pela partilha.
Com admiração
António Almeida
António Almeida a 14 de Julho de 2009 às 23:04

Ola,amiga ANA,fez-me regressar aos tempos de juventude quando ia passar ferias a aldeia dos meus avos.A mesma que la estarei em Setembro visitando os meus queridos "velhotes".Como e bom recordar.Abracos.Luis voador
luis f jose a 16 de Julho de 2009 às 17:47

Ola,amiga ANA,fez-me regressar aos tempos de juventude quando ia passar ferias a aldeia dos meus avos.A mesma que la estarei em Setembro visitando os meus queridos "velhotes".Como e bom recordar.Abracos.Luis voador
luis f jose a 16 de Julho de 2009 às 17:52

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