existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
24
Mai 10
publicado por alemvirtual, às 10:15link do post | comentar

Cheguei. Meia noite de um Domigo "quase perfeito" ou zero horas do "dia seguinte"...

 

Terei que dissociar o prazer e a beleza do sofrimento e da desilusão....a alegria de estarmos juntos da angústia de quem não sabia se "chegávamos"...

 

Que é uma das mais belas provas do mundo? Sim. Decerto. De "cortar a respiração"...uma beleza indescritível. Pena que a organização quase tenha "cortado" a respiração a muitos...

 

Por enquanto ficam estas fotos que a Ana enviou...

 

Prova: Meia Maratona Douro Vinhateiro - Régua, Portugal...slogan: "A mais bela corrida do mundo"

Local Partida: Barragem Bagaúste

Distância: 21 Km

Temperatura: acima de 30º

Patrocínios: Muitos

 ÁGUA: ZERO!

 

Brincando à entrada da "prova"

Com Magnífica (entrada Mini e Meia)

Com António e Jorge

Com António e Fernando, no tabuleiro da barragem (início da prova)

 

Tempo de Prova: 2 horas e 38 minutos!!!

Resultado?: Cheguei...viva

Anjo da Guarda: António Pereira (pois claro! Podia ser de outro modo?)

 

Evidentemente que a participação numa Meia Maratona pressupõe alguma preparação física e o conhecimento da condição e da capacidade de resistência quer física quer piscológica. Afinal são 21 Km a correr!

Evidentemente que existem variáveis, além das conhecidas e ainda das previsíveis (mas "improváveis") que podem influenciar, ou mesmo determinar o desempenho de um atleta.

Evidentemente que a Meia Maratona não era uma prova de auto-suficiência.

Pois, evidentemente.

Mas evidentemente que a Meia Maratona do Douro Vinhateiro ultrapassou qualquer definição, descrição e previsão...quase apetece dizer "Não vou por aí" - José Régio.

 

O dia esteve, de facto muito quente. Houve pontos do percurso que, segundo se diz, a temperatura ultrapassou os 36º! (à chegada à Régua o termómetro ao lado do Hotel, marcava 30º!). A Partida foi dada pelas 11h. Uma hora demasiado tardia...

 

O ambiente era de festa. Milhares e milhares de pessoas entre participantes da Mini e da Meia. Também eu estava em festa. Apesar do sol tórrido deixei-me envolver pela paisagem deslumbrante das vinhas que enlaçam os montes e concorrem com o rio em notas de tom de verde. Dancei. Saltitei como criança feliz. E estava. Porém, conhecendo a minha fraca resistência ao calor e as súbitas quebras de açúcar, a dúvida entre optar pela Mini em vez da Meia, assaltou-me. O receio, muitas vezes, tem sido o meu aliado e nunca testei verdadeiramente os limites numa prova. Pelo menos nunca mais, desde os 15 Km das Lezírias, num dia igualmente quente. Não fosse o António e o desfecho teria sido diferente... (mas isso foi uma outra prova).

 

Na V Edição da Meia Maratona do Douro Vinhateiro iríamos comprovar se esta seria a "mais bela corrida do mundo".

Os primeiros quilómetros, a um ritmo oscilando entre os 5´30´´ e os 5´45´´ permitiam conversar, como sempre fazemos e apreciar a paisagem. Rapidamente travámos conhecimento com uma portuguesa vinda da Suiça para participar na prova e com uma filandesa. Acordámos que 2 horas seria o tempo previsível para completar o percurso. Fomos conversando, completamente absorvidos pela beleza da paisagem.

O primeiro sinal de alerta surgiu quando o abastecimento aos 4 km (sensivelmente) apenas proporcionava uma bebida isotónica (não vale a pena referir a marca). Mais à frente encontrámos água e ao retorno, que creio ter sido aos 7 Km, um carro de Bombeiros oferecia um "chuveiro" fresco. Uma delícia no meio daquele "braseiro".

Depois disto, estivemos por nossa conta e risco. Ou seja, nada mais. Nem abastecimento de água, nem carros de apoio. Nem sequer casas particulares onde recorrer até cerca dos 17 Km! Apenas a paisagem nos confortava com a sua beleza e, a mim, o António (obrigada).

Sentia que estava em risco de desidratação. Tentei controlar. Comecei a andar aos 14 Km (muitos fizeram-no antes) quando percebi que nem aos 15, teria água. Em cada curva do caminho a expectativa de um abastecimento "fora de sítio". Mas nada! Água só no rio, inacessível da estrada, nos ribeiros e quedas de água que desciam das alturas. Aproveitámos umas gotas que desciam pela encosta num ponto que já não posso precisar. Ali se juntou uma mão-cheia de atletas que mais pareciam refugiados de guerra, caminhando esforçadamente.

A pele seca queimava ao sol. Nem transpiração já produzia. A respiração tornou-se difícil e a sensação de vómitos e de que o rio começava a dançar eram por demais evidentes. Andei durante bastante tempo. Uma eternidade...

Quando senti que estava mais controlada voltei a um ensaio de corrida lenta. A desmoralização era enorme entre os participantes. Ouvia protestos. Creio que o prazer da corrida deixou de existir para muitos.

Aos 17 Km uma alma caridosa colocou à disposição uma mangueira de rega e deu de beber a todos. Regou-nos como quem rega os campos. Mais à frente, duas senhoras tinham apanhado garrafas vazias do chão do único posto de abastecimento que vi (sem oferta, claro está) e encheram-nas com água do quintal. Ofereciam-nas. Com essa ajuda entrámos na Régua a correr. Quem aguardava nas bermas das estradas aplaudia. Incentivavam. Por mais 2 quilómetros a corrida foi uma corrida. Mas desisti. Nem sei se a "ruptura" foi mais psicológica que física.

Era o caos total perto da zona da Meta. Faltavam completar quase 2 Km. Fizemo-los a andar, mais uma vez. Ambulâncias circulavam em marcha de urgência. Nunca vi tanto aparato. Era o descontrolo. Sirenes, protestos (de quem tinha forças para o fazer), desmaios, ecos de revolta, de pânico, companheiros em completo desespero...

A RTP tinha encerrado a reportagem. Enrolavam-se cabos. As garrafas vazias no chão como vestígios de uma batalha campal. Arumavam-se faixas de publicidade da "corrida mais bela do mundo". Desmontava-se um cenário que nem nas piores previsões teria sido imaginado...

Percebi que, só depois de chegar a mensagem de que a prova estava sem água nem apoio e de os desmaios serem sucessivos à chegada é que a organização enviou ambulâncias, mas...água. Água continuou uma miragem em forma de rio...

 

Como se costuma dizer "Muita parra e pouca uva".

 

Um percurso de uma beleza extraordinária. Recomenda-se (e sobretudo que a organização funcione melhor nos suportes mais básicos a uma prova desportiva desta natureza: água e assistência). 

 

 


Ana

Nem no imaginário se supunha encontrar uma prova assim, pelo que tu contas e pelo que li nos comentários deixados por ti e outros companheiros no tema do Fernando Andrade.

Inacreditável. Começar uma meia às 11h e nas condições descritas só no Inferno de Dante.

Tanta publicidade para tão pouco. Soube que houve casos graves de insolação, na Geira também os houve mas nada comparado ao aqui relatado.

Como tu bem o dizes: «A prova? Bem, só se for a de vinhos... ».

... E eu que caso não fosse à Geira ia a essa... Livra!!!

Uma boa recuperação, tanto no corpo como na mente.

Tudo de bom
mariolima52 a 24 de Maio de 2010 às 22:45

olá Ana Paula
parabéns por teres chegado ao final em condições sub-humanas.
que raio de organização !!!
mas superaste o desafio, com raça e estratégia.
boa recuperação, boa re-hidratação :) e até breve.
um beijo GRANDE.
António Bento
António Bento a 24 de Maio de 2010 às 23:24

Olá Ana Paula, pelo que conta, esta meia maratona foi mesmo uma Duriesseia e os atletas uns autênticos guerreiros. Só tenho que lhe dar os parabéns porque, em condições desumanas como foram as desta prova, chegar ao fim é mesmo um feito. É lamentável a des(organização) de uma prova tão badalada, qual será a imagem que muitos estrangeiros participantes levam para os seus países. As maiores felicidades para os próximos desafios.
João Melo a 26 de Maio de 2010 às 16:36

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