existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
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Out 10
publicado por alemvirtual, às 20:51link do post | comentar

"Cesse tudo o que a Musa Antiga canta"

 

L. Camões, in Lusíadas

 

Tarde nostálgica na margem dos rios. À margem dessas margens, de um e outro lado, repousa o olhar. Espelho (hoje) verde, profundo, tranquilo de águas brandas. 

Percorro caminhos de infância até chegar à casa branca frente a uma dessas margens. O tempo pára. Nao vejo o ar abandonado, mas a casa alta de portas e janelas de madeira e cortinas de renda. Em frente, uma faixa de terra cultivada de milho, separa-a do canavial que esconde a curva do Tejo.

 

Chamávamos-lhe, simplesmente, " o rio". Quando, no Inverno, a água transbordava enchendo a zona baixa da vila, detinha-se aos pés da casa. Uns degraus de pedra calcária elevavam-na e, por ali, vigiavam o avanço das cheias ameaçadoras do Ribatejo.

Vejo-me na "minha casa". Vejo-me nela e fora dela. Recordo uma vinda da escola, numa tarde amena de Primavera. Naquele tempo, usava uma bata imaculadamente branca e engomada. Não compreendi, bem, mas uma sensação estranha de estar presa nas suas pregas, invadiu-me. Tive medo de chegar a casa. Uma ambulância militar verde (ou seria azul? Nunca perguntei porque era verde e não azul) com uma cruz vermelha inscrita em círculo branco, estava parada à porta. Foi a primeira vez que percebi que os corações podem parar...

Entro em casa.

De todos os espaços, recordo aquele a que eu chamava "quarto dos brinquedos". Não que fosse um quarto destinado a brinquedos, mas apenas porque era o quarto que continha os "meus brinquedos". Não era um quarto de dormir. Ninguém lá dormia. Apenas as minhas bonecas e as bonecas da minha irmã. Os meus brinquedos "ao monte", as suas "casinhas de bonecas" organizadas.

Que diferença...

Ela, já muito "caseira" e feminina arrumava as loiças de porcelana que o pai tinha trazido de África. Tinha bules e canecas com pires. Em tom de azul e branco. Uns sofás em miniatura de um material entrançado e castanho. As bonecas sempre bem vestidas e penteadas. Tudo com horas e regras. Fazia chá e comida imaginária nos tachinhos que colocava no fogão de brincar. As minhas, pobres desgraças, sem roupas, de bocas rasgadas pelas tesouradas e braços picados pelas agulhas. Descabeladas. Despenteadas. Sujas no interior pelos líquidos que lhes enfiava boca abaixo. Enfaixadas com trapos e farrapos que ia cortando de meias velhas ou restos de tecido que sobrava dos vestidos costurados pela mãe da Joana.

Havia uma janela do género "águas-furtadas" sobre o telhado do terraço que ficava do lado da cozinha. Por ela via uma laranjeira enorme, de copa muito verde e redonda. Os ramos mais altos ultrapassavam as primeiras telhas, mercê, do terraço estar num plano mais baixo que o quintal. Pouco me atrevia por lá. Nem o lago que o meu pai tinha construído para os patos vencia o meu receio de me aventurar por ali fora...

Vestidos iguais, em manas diferentes. Ela, com sentido de organização, mandava sentar-nos nos degraus que desciam do terraço para um portão grande de madeira. Nele, como se fosse um quadro escrevia com giz o abecedário e exigia que acompanhássemos a lição. Nós, eu, a Lurdinhas, a Blita e a Luzinha, mais uma garota da qual não me recordo o nome, mas acho que era Anabela, sentávamo-nos nos degraus da escada, como se fosse um anfiteatro. Ai de quem não estivesse atenta à professora!

Vocações nascidas na infância. Ainda hoje tem olhos verdes e uma vontade imensa de ensinar. Eu, tenho olhos castanhos e não "corto" bocas a bonecas. Percebi que, talvez, não fosse esse o meu caminho. Qual seria? Nao sei. Ainda o estou a percorrer, como percorro, errante, os quartos da minha casa branca e alta de infância.

 

Ela conserva algumas louças de bonecas que escaparam aos meus descuidos. Eu, desse tempo, quase nada conservo para além de memórias, lembranças de cheiros de laranjeira e torta de chocolate. Conservo a imagem do quarto de brinquedos e o receio das escadas do sótão; as idas à biblioteca com ela e as horas passadas a devorar os livros do "Pequenu";

Ambas conservávamos umas bonecas, iguais, que o pai comprou na terra de clima mais quente (tínhamos sempre prendas iguais). Caracóis louros, vestidos cor-de-rosa (depois em tom de azul que a mãe fez) e um mecanismo ultra-moderno, a pilhas, que as punha a andar.

A boneca da minha irmã está em casa. A minha não está comigo.

 

Pelo caminho encontrei dois corredores. Olhei-os pelo vidro do carro e sorri. Os homens, se viram, devem ter pensado: "A mulher é maluca"! E pensavam bem...


Discordo, Paula.
Nada disto é o que "a musa antiga canta" e que tenha que se calar. O que aqui vem relatado é um dos valores que "mais alto se alevanta", recordações felizes que, afinal, nos prolongam a existência. E o seu registo feito assim como tão bem a Paula consegue e partilha, merece o nosso aplauso e a nossa gratidão.
Obrigado Paula.
FA
Fernando Andrade a 29 de Outubro de 2010 às 15:08

Gostei do texto.
Abraçoe bom fim de semana.

(constancia vila poema)
Manuel marques a 29 de Outubro de 2010 às 18:56

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