existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
03
Nov 10
publicado por alemvirtual, às 20:16link do post | comentar

Não sabe porque chamava "Tia" à irmã. Ela não sabe porque lhe chamava "Xolho". O que é certo é que ela foi "Tia" até que, um dia no colégio, quando a mais nova usava o Castelo Amarelo e a mais velha o Castelo Branco (respectivamente, 1º ano do Ciclo Preparatório e 1º ano do Liceu) esse epíteto lhe valeu uma reprimenda tal que, nunca mais, o Xolho se atreveu a chamar Tia à mana!

 

Algumas memórias ficam, como se de registos fotográficos, ou filmes antigos se tratassem. Não filmes mudos, a preto e branco, nem fotografias como aquela sentada, sem legenda, mas que recordo ser na Costa de Caparica, tirada por um dos fotógrafos que percorriam o areal carregados com máquina altas e estranhas. Essa mostra uma menina a franzir o sobrolho, lábios grossos e cabelo curto "à rapaz"; fato de banho de duas peças, estampado com motivos minúsculos, em cima de um cavalo de madeira e pés assentes na areia ondulante da praia. Tudo em tons de cinzento e preto. Recordo-me, porém, que o fato de banho era azul e amarelo, o cavalo era castanho e a areia dourada.

 

Da casa onde nasci, recordo algumas imagens. Pequenos excertos de quase três anos lá passados. Diz-se que é dificil recordar os primeiros anos de vida. Eu recordo alguns episódios. (agrada-me a palavra "recordo"; é reconfortanto; recordar é reviver a vida, na primeira pessoa)

 

Esta não era a casa nº3.  Era uma casa assombrada, dizia a minha mãe. Ficava num dos "socalcos" onde se erguia o casario da vila. Por isso, casas e quintais surgiam em patamares.

Era uma casa com um corredor enorme, da qual nada mais recordo, além de que, ao fundo, havia a cozinha. Daí, acedia-se a um grande terraço com chão de cimento. Abaixo dele, o quintal do "A" (vou omitir o nome, se bem que me lembre dele), um homem com ar de velho que padecia de uma doença mental e a quem todos chamavam "O Tonto". Tinha pavor até de ouvir o seu nome, quanto mais pensar na possibilidade de me aventurar no terraço e ouvi-lo  falar sozinho! Muito menos ultrapassar aquela barreira enorme de uns três ou quatro degraus que separavam o terraço, fronteira do meu mundo conhecido, do quintal inexplorado. Do quintal, apenas o fascínio pelas laranjeiras em flor falava mais alto que o receio do desconhecido. O medo era vencido pela atracção do cheiro. E esse aroma intenso, floral, exótico havia de permanecer em todas as casas do Ribatejo. Impregnou a minha infância e embebeu-a de sons de asas de abelhas.

 

A "Tia" era uma menina linda. Diziam que era uma boneca. Chamavam-lhe "Menino Jesus". Pele muito branca, olhos verdes e cabelos claros, quase dourados, enracolando levemente nas pontas...

O "Xolho" morena, cabelo curto, olhos escuros e reduzida estatura, observava o mundo olhando-o de cima das escadas...

 

Eu recordo-me dela, choramingona, mimada, frágil demais e birrenta, engolindo em troca de um brinquedo ou qualquer outro capricho, duas colheres de canja.

Ela recorda-me como uma menina feia, magricela, com um apetite voraz e uma pele muito escura.

Ela manteve-se linda, frágil, mimada. Eu continuo magra e com um apetide devorador.

Eu sou a sua protegida. Ela a minha protectora. São os contrastes entre a Tia de porcelana clara e o Xolho de barro escuro.

 

Mas o que eu queria era contar aquela vez em que a Tia pôs o Xolho debaixo da torneira do quintal... Devia ter uns três anos...ela menos de seis. Recordo-me da aflição debaixo da água. Ela recorda-se que eu era pequena e cabia lá, perfeitamente...

 

Outra noite, contarei, aquela vez, em que ela me ensinou a acender o candeeiro e eu dizia: "´ai tá...´ai tá": tradução - Já está! Já está! Ou quando eu me escondi num armário (ou foi ela que me pôs lá?):-)) e toda a família chorava, quando alguém levantou a hipótese de eu ter caído para o quintal do "Tonto"...

 

A foto é minha e é o Tejo em Constancia, Abril de 2007


Olá Ana

Desfeito um sonho, o sonho de um filho querer ser "grande" num país de medíocres, leio aqui outros "sonhos". Recordares de uma infância, de uma Tia e de um Xolho que faziam as patifarias próprias de crianças. Sabes que tens muito jeito para contares estórias? Daria um livro lindo a história destas personagens que não são mais que retalhos da tua vida.

Pensa nisso.

O António, em Almeirim, referiu-me que essa lesão nos tendões estava ainda em fase de cura. Como não li os teus temas anteriores (devido ao que leste no meu blogue) não sei se já está debelada.

Espero que sim e continua o teu conto que estou a gostar de ler.

Tudo de bom
mariolima52 a 5 de Novembro de 2010 às 05:38

Obrigado amiga Ana pelos incentivos para o Porto, da minha parte pode contar que a minha vontade é acabar aquilo e que fique em condições de no Domingo seguinte possa estar na Nazaré.
Um beijinho e os meus parabéns pela bonita história que nos ofereceu.
joaquim adelino a 5 de Novembro de 2010 às 22:51

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