existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
05
Fev 07
publicado por alemvirtual, às 09:15link do post | comentar | ver comentários (1)

Percursos

 

Rumo a Monsaraz…

 

Domingo, 19 de Novembro de 2006

 

Dez horas. Manhã ensolarada de um Outono quase Verão. Saio de casa do Sr. José em Reguengos de Monsaraz com o objectivo de chegar a Monsaraz (a correr, é claro!)

 

Antes, tinha preparado a lebre que iríamos comer ao almoço: a minha estreia em ensopado de lebre (modéstia à parte, ficou bem apetitosa; fizemos-lhe tais honras que dela só restaram os ossos descarnados).

Após ouvir atentamente a explicação do caminho que deveria tomar, saí…

(Ah! Importante, é registar que estreei uns óculos novos de desporto. Vermelhinhos e lindos de morrer. Só pelo preço se percebe que não devem valer grande coisa, mas que fazem vista, lá isso fazem!)

 

Como não podia deixar de ser, enganei-me logo, mal deixei a povoação. Sorte a minha, era dia de caça e o Alentejo ainda faz jus à tradição! Pergunto a um grupo de caçadores qual o caminho, o que me fez perder uns minutos a ouvir a explicação. Que se passaria na cabeça deles? Decerto pensaram que eu seria maluca, ou então, na melhor das hipóteses que me teria perdido do restante grupo de corredores, pois há formas bem mais rápidas de chegar àquela página de pedra da nossa história, verdadeiro miradouro da eterna planície alentejana, esculpido há séculos sobre o jovem espelho de água do Alqueva…

 

Retornei ao verdadeiro percurso.

Mais concentrada na riqueza paisagística que na passada que levava, contemplava os campos pululantes de vida, em redor. A luz do sol banhava os campos pintados de verde e amarelo de pequenas flores silvestres. As vinhas, há muito nuas de cachos, ostentavam agora o tom ocre envelhecido da folhagem agonizante.

Aqui e ali um pássaro cruzava o meu caminho.

Ao longe, troava no ar um tiro disparado pelos muitos caçadores ocultos em moitas.

Adiante, as oliveiras deslumbraram-me…ramos pendentes quase tocando no chão sob o peso dos bagos maduros, fizeram-me recordar a beleza de um rancho na apanha da azeitona e a técnica manual de tempos idos, substituída agora, pela eficácia das máquinas. Recordei-me de um Inverno, em que há muitos, muitos anos, eu, então criança, observei e imitei os adultos nesta faina: primeiro estendiam-se os panos debaixo da árvore. Panos feitos de serapilheira, enormes, abarcando ao máximo a área que a copa da oliveira delimitava…Depois, de vara em punho, (uma vara comprida) batia-se nos ramos (chama-se varejar, lembrei-me) …por fim, vinha o ripar: deslizando o ramo entre os dedos, retiravam-se os bagos mais teimosos. Foi exactamente isto que vi. Homens e mulheres trabalhando como se o tempo tivesse parado na minha infância.

À passagem pelo maior centro oleiro do país, senti-me a entrar nas páginas de um livro de algum conto tradicional português. S. Pedro do Corval, todo ele uma exposição da típica arte de enfeitar o barro. À esquerda e à direita, pratos, canecas, vasos, cântaros e uma infinidade de peças multicoloridas, destacavam-se nas paredes brancas das casas e nos passeios, ao longo da estrada.

S. Pedro do Corval não foi só um deleite para a vista, mas também uma sedução para o meu olfacto. Eu, que adoro a boa “cozinha”, imaginava ricos ensopados a serem preparados dentro das casas, pelo aroma inconfundível das especiarias que as janelas abertas deixavam escapar...

Seguia em frente, cada vez mais, com um sorriso desenhado nos lábios. Isto sim, era uma aventura. E era só minha, uma aventura solitária…saboreava-a com tanto prazer, como mais tarde iria saborear a lebre que me aguardava, uns quilómetros atrás.

 

Aqui e ali montes e herdades com nomes históricos e romanescos. Poços com noras e regatos de água, contrariavam a ideia da secura alentejana.

Continuava a correr a um ritmo bastante bom para mim. Sentia-me em plena comunhão com a natureza. Sempre senti que dela faço parte e dela preciso para viver.

De vez em quando deixava a firmeza do alcatrão para quase enterrar os pés na terra fofa das bermas.

Surpresa vi freixos e choupos e descobri mais uma ribeira. Perto, uma pedra que me pareceu tumular. Tentei ler, concentrando-me ao máximo, mas não consegui decifrar o que imaginei ser um epitáfio… Mais tarde, soube que lhe chamam a “Pedra dos Namorados”, mas ainda não sei que mensagem tem inscrita nem a lenda em seu redor.

 

Entretanto, surge uma bifurcação no caminho. Deveria ser sempre em frente, conforme me recomendaram, mas…e se fosse para a direita? Mais vale perguntar. Sem parar, cumprimento um homem sem ar de lavrador que percorria uma vinha:

_ Bom dia! Para Monsaraz é em frente?

_Sempre em frente – respondeu. E logo de seguida: A menina consegue lá chegar?

Gente com sentido de humor…ri-me tanto que quase perdi a força para continuar a correr.

 

Ao meu lado, a minha sombra acompanhava-me, dando-me a ideia de me estar a ver ao espelho, o que era óptimo para observar o vaivém dos braços e o impulso das pernas…pés rente ao chão para poupar energia, calcanhar atirado para a frente…tocando no chão…depois a planta…o pé todo… (até que posiciono bem os pés- pensei. Tenho que melhorar é o vaivém dos braços, pois continuam a oscilar demasiado).

Via ao longe o castelo e as muralhas…cada vez mais próximo…um pouco mais próximo…

Acelerei um pouco o ritmo. Comecei com passadas mais compridas (não muito, já que naturalmente são pequenas) e mais rápidas. Olhei para o relógio: tinham passado 75 minutos.

Com uma buzinadela, o carro que me haveria de “recolher” em Monsaraz, anuncia que chegou junto a mim. O castelo ainda estava um pouco distante, lá no alto.

- Quantos quilómetros fiz? – perguntei.

- Cerca de 12.

- Só? Vou continuar até à hora e meia.

Não consegui o meu objectivo. Corri 14,8 km em 1h 31m.

Para a próxima irei até ao fim.

 

Deste dia, ficou a satisfação de ter realizado um treino relativamente longo, em estrada, completamente sozinha. Não tive receio. Eu que me sinto sempre apreensiva quando me tenho que deslocar a pé em sítios pouco movimentados, superei, neste dia, esse medo natural. Senti-me segura e em comunhão com a natureza e os sons do campo.

Se foi positivo enquanto treino, foi ainda mais gratificante pela sensação de bem-estar físico, psicológico e emocional. Para mim, é assim que deveriam ser sempre os treinos, independentemente dos objectivos que os norteiam e do grau de consecução dos mesmos: fonte de prazer e estímulo para a vida e para a continuidade da actividade física. Afinal, não descobri nada de novo, pois “mente sã em corpo são” já era uma máxima para os romanos. Eu só sublinho a importância de que “mente” não deve ser entendido apenas na perspectiva racional, mas na dualidade razão/emoção.

Além de mais, eu sou sobretudo um ser emotivo! Ainda que nunca venha a ser sequer uma pequena atleta, serei sempre uma grande sonhadora.

Tenho uma vida preenchida de sonhos realizados e de risos e umas quantas páginas de sonhos desfeitos e de lágrimas… continuarei a “correr” por caminhos e percursos suaves que me conduzam a horizontes coloridos. Mas se tropeçar em pedras nos caminhos e as veredas se tornarem agrestes, não desistirei. Em frente, sempre em frente, pois lá adiante esperar-me-á uma senda mais tranquila e um vale verdejante. Eu sei. Eu acredito. Eu tenho esperança.

Desejava que a fé nascesse no coração de cada Homem, como o verde nasce nos campos.

 

Desejava que os meus pés voassem!!! Mas devo agradecer pelo facto de conseguirem andar.

A.P.


04
Fev 07
publicado por alemvirtual, às 08:58link do post | comentar

 

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.
 
Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.
 
Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.
 
Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.
 
Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.
 
Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.
                     José Carlos Ary dos Santos

Uma canção, um poema para ler, ouvir e "saborear"... Hoje, acordei com esta canção. Trago-a muitas vezes no pensamento. Quis colocá-la aqui.Dispensa qualquer comentário, até porque, por muitas páginas que escrevesse, jamais passariam de um pálido e pobre reflexo da riqueza deste poema. Os poetas são quem melhor retrata os nossos estados de espírito, são os espelhos da alma...


03
Fev 07
publicado por alemvirtual, às 19:16link do post | comentar

 

 

 

 

 

 

 …” Amanhecia um novo dia de trabalho.

 


      Mas lá ao fundo, sozinho, longe do barco e da costa, Fernão Capelo  Gaivota treinava. A trinta metros da superfície azul brilhante, baixou os seus pés com membranas, levantou o bico e tentou a todo custo manter as suas asas numa dolorosa curva.

A curva fazia com que voasse devagar, e então a sua velocidade diminuiu até que o vento não fosse mais que um ligeiro sopro, e o oceano como que tivesse parado, abaixo dele. Cerrou os olhos para se concentrar melhor, susteve a respiração e forçou ... só ... mais ... um ... centímetro ... de ... curva ... Mas as penas levantaram-se em turbilhão, atrapalhou-se e caiu.

      Como se sabe, as gaivotas nunca se atrapalham, nunca caem. Atrapalhar-se no ar é para elas desgraça e desonra. Mas Fernão Capelo Gaivota - sem se envergonhar, abrindo outra vez as asas naquela trémula e difícil curva, parando, parando ... e atrapalhando-se outra vez! - não era um pássaro vulgar.

      A maior parte das gaivotas não se preocupa em aprender mais do que os simples factos do voo - como ir da costa à comida e voltar. Para a maioria, o importante não é voar, mas comer. Para esta gaivota, contudo, o importante não era comer, mas voar. Antes de tudo o mais, Fernão Capelo Gaivota adorava voar...” (in, Fernão Capelo gaivota, BACH Richard)

 

 

Imortal e intemporal a obra de Richard Bach.

Ainda que todos os livros se destruam, qual incêndio de Alexandria, R. Bach conquistou um lugar na História da Literatura e na história individual de quem mergulhou no seu vasto universo. Fernão Capelo Gaivota, Um, A Ponte para a Eternidade….alguns dos meus preferidos. Mas, de entre todos e de entre todos os outros “amigos de papel”, Fernão é, sem dúvida, uma referência e algo mais que a história de uma gaivota. É uma história de vida.

 Erguer as asas e voar… Cair e voltar a tentar…. Errar e não desistir… Conseguir e aperfeiçoar…Conhecer e partilhar…

 

 

Vem-me à ideia os “meus meninos” (alguns, já não são nada meninos, mas é assim que, carinhosamente, gosto de os chamar). Com os “meus meninos” é preciso roubar tempo ao tempo…ao nosso tempo e dar-lhes tempo. É um dos nossos mais importantes aliados. Eles caminham exactamente ao seu ritmo; nem mais nem menos. Nós mantemos expectativas elevadas, sem contudo pedir o impossível…muitas vezes parece que o pedimos…como Fernão…e, eis que o impossível acontece. São pequenos passos, pequenas grandes vitórias…e nós exultamos com eles.

Não sou Fernão, mas gostava de ser uma gaivota parecida. À semelhança dele, costumo dizer aos “meus meninos”:

 - Aqui há duas proibições: Nunca dizer, “não consigo” e “eu não sou capaz”. Também há duas obrigações: Dizer continuamente:“Eu consigo” e “Eu sou capaz”...e acreditar...acreditar sempre. 

É preciso repetir... repetir... repetir e nunca desistir. Um dia, voaremos juntos e ainda ensinaremos outros a voar…

(De entre todos os meus meninos, a Paulinha foi o sol que iluminou os meus dias, a força de que necessitava. Mais do que eu a ela, foi ela quem me ajudou a mim. A minha relação com a Paulinha e as recordações que me deixou permanecerão intactas para sempre. Tenho saudades dela. Gostava de conseguir expressar a coragem, a força e a motivação daquela menina. Ela sim, assemelhava-se a uma gaivota….mas uma gaivota muito especial…)

 

A.P.

 

 

 


02
Fev 07
publicado por alemvirtual, às 19:20link do post | comentar

Texto escrito em 1995 destinado a ser dramatizado por crianças na faixa etária dos 7/10 anos. Música de fundo de Vangelis. Apresentado na Festa da Vida. 

 

 No princípio, antes de Deus criar o Mundo, não havia nada, apenas o vazio, depois o caos. Então, Deus criou o Sol, as Estrelas e a Terra…

A água nascia fresca e límpida, formaram-se os lagos, os rios e os mares.

A Terra surgiu como um jardim coberto de flores…flores lindas, nas cores mais belas…colorindo o chão e perfumando o ar. Cresceram árvores, formando florestas, bosques e pomares….dos seus ramos pendiam saborosos frutos.

Tudo era belo e puro…

A Terra foi, então, povoada por animais. Uns mais fortes e poderosos, outros fracos e indefesos. Alguns extinguiram-se, outros evoluíram, outros permaneceram iguais à sua origem.

Então, Deus criou o Homem. Esta era a criatura mais perfeita, a Sua obra-prima, o auge de toda a criação. Mas os homens não souberam amar a obra de Deus nem amar os outros homens. Lutaram entre si e o mundo conheceu a guerra.

 

Deus tudo via e ficou triste. Manifestou-se e falou pela boca de alguns homens a quem chamaram Profetas. Os Profetas anunciaram:

 

“De Israel sairá uma luz,

A Luz da palavra de Deus

Deus reinará sobre todos os povos.

Já não se destruirão mais na guerra.

Habitará o lobo com o cordeiro,

o novilho brincará com o leão

o cabrito e a pantera pastarão juntos,

uma criança levá-los-á a pastar

Vinde! Caminhemos à Luz de Deus”

 

Os que amavam a Deus aguardaram a Luz Divina que havia de surgir em Israel. Outros ignoraram estas palavras e continuaram nas trevas do ódio e da destruição.

Deus que muito ama o mundo teve pena de tantos inocentes e manifestou-se mais uma vez:

 

“ Eu sou a voz que clama no deserto. Preparai os caminhos do Senhor e endireitai as suas veredas.

O Filho do Homem está próximo.

Eu sou aquele que não é digno de lhe desatar a correia da Sua sandália”

  

Deus enviou o Seu Filho que, tornando-se Homem, falava ao Mundo, proclamando o Amor a Paz. Falava do Amor de Deus, da Sua bondade e da sua compreensão.

Muitos ignoram-nO, rejeitaram-nO e mataram-nO. No entanto, a semente da Sua Palavra ficou, cresceu e deu e deu frutos. Os que amavam a Deus eram cada vez mais, e multiplicaram-se, e não param de aumentar. Mas ainda, hoje, há quem O ignore, O rejeite e O ofenda.

 

  

Há homens surdos que não ouvem a música do vento, nem do mar, nem do canto das aves…

Há Homens cegos que não vêem a cor do céu, nem das flores, nem o encanto de toda a natureza…

Há homens frios que não sentem o calor do Sol, nem o fresco das sombras, nem a magia da neve que cobre a serra…

Há homens egoístas que não repartem com os outros a abundância do pão…

Há homens mudos porque lhes tiram a voz e a Pátria…

Há crianças que choram, porque há homens assim….

 

Deus quis que os homens fossem livres e felizes. Entregou-lhes a Terra, este Paraíso azul, para que nele vivessem, fossem livres e felizes. Mas em muitos lugares desta Terra, que quase já não é azul, os homens não são livres nem felizes. Destroem-se a si e destroem a Terra.

 

Abatem florestas inteiras…

Exterminam animais…

Em nome do progresso ameaçam a vida na Terra…

Em nome da Paz, fazem a guerra.

 

 

Mas Deus dá, em cada dia, uma nova esperança ao mundo e em cada criança que nasce a oportunidade de corrigir estes erros. Sempre que a noite cai é como se um ciclo de vida se fechasse, sempre que o sol desperta, a possibilidade de renascer para o bem. Todos os dias se pode começar um mundo novo. Basta querer. Mas os adultos tornaram-se insensíveis e não compreendem estas coisas fáceis e simples. Para mudar o mundo basta ter um coração de criança, um coração confiante.

As crianças querem ter o direito de viver nesta Terra que Deus lhes preparou e lhes deixou de herança. Uma Terra verde e azul, povoada de animais e de flores, onde conheçam a Paz e o Amor e onde só Deus possa dar e tirar a vida. As crianças acreditam, confiam e esperam. Querem que o mundo conheça a palavras de um Homem chamado JESUS.

 A.P. 


publicado por alemvirtual, às 14:42link do post | comentar

 

 

Hoje, vou voltar a treinar! Passaram quatro semanas desde que corri pela última vez. Finalmente, deram-me “luz verde” para recomeçar. Uma lesão obrigou-me a prescindir daquilo que, nestes últimos tempos, mais prazer me dava: correr.

Calçar uns ténis e sair ao final do dia, partilhando a pista ou as bermas das estradas com outros amantes da corrida, tornou-se para mim mais que um hábito, mais que uma necessidade…tornou-se verdadeira fonte de água pura onde eu bebia, sedenta de tempo livre de mágoas. Era (e vai voltar a ser) na corrida que as angústias e os medos de uma existência difícil se diluíam como fantasmas desvanecidos perante a luz.

Correr… algo tão simples, tão ao alcance de mim e ignorado durante tantos anos. As coisas fáceis e simples, muitas vezes se ocultam diante dos nossos olhos. Para as ver necessitamos de as olhar com “os olhos do coração”… e que deleite a sua descoberta…

Eu descobri a corrida porque alguém a desvendou aos meus olhos. A venda caiu e comecei a enxergar…Esse alguém mostrou-me aquilo que mais “amava” na vida: correr nos campos, na praia, na estrada, numa pista…apenas e sempre, correr. Um acidente de viação roubou-lhe a possibilidade de voltar a cortar Metas.

 Sentia no seu olhar a saudade desses tempos, a dor contida nas palavras ditas e a dor calada nas palavras por dizer… creio que o seu coração chorava, sufocava a angústia do “nunca mais”.

Hoje, eu corro por ele e com ele, ou será ele que corre em mim?

Ele acompanha-me, incentiva-me, orienta-me e corrige-me. Cada passada que dou são os passos que ele desejava dar. Está do “lado de lá” das provas. Agora, faz parte da multidão anónima colocada ao longo das estradas. Outrora integrava o grupo daqueles por quem essa multidão se deslocava e a quem aplaudia.

Pouco a pouco ganhei uma admiradora fiel: a minha filhota. Ela espera que eu corra a Meia Maratona (algo inimaginável há uns meses atrás). Até aqui, também nunca acreditei, agora tenho uma dupla motivação para tentar… por ela e por ele.

Ela “corre”, contra o tempo, num caminho sombrio que o espectro do cancro acompanha. Acredita que, um dia, há-de correr mais que ele até perdê-lo de vista. Eu também quero acreditar; ter fé que a palavra “Meta” esteja muito longe de ser alcançada. Abrir os olhos e descobrir que alguém a arrancou do seu caminho e, em seu lugar, colocou a palavra “Partida”. Partida para uma vida com sonhos, com sorrisos e projectos…

Desta outra “corrida” falarei, talvez, outro dia. Há momentos em que o sofrimento sufoca as palavras. Sente-se, apenas.

Hoje, vou voltar a correr e, por breves momentos, tudo será esquecido (?).

Um dia, ainda vou fazer a Meia Maratona. Nesse dia, gostaria de ganhar duas medalhas: uma para ele, outra para ela. Merecem. Assim eu consiga.

AP


01
Fev 07
publicado por alemvirtual, às 18:24link do post | comentar

 

No início de um novo ano, mantenho os velhos sonhos e acalento sonhos novos…

Novo ano, nova vida ou nova oportunidade de recomeçar, de emendar o menos bem e de melhorar o quase bom, sempre numa perspectiva de mudança, numa evolução qualitativa. Estes marcos, embora simbólicos, prestam-se a estabelecer limites, rupturas com velhos comportamentos, inícios de outras formas de ser e estar, assentes nas vertentes de pensar, sentir e agir, norteados por valores mais altruístas.
Por natureza, o ser humano deveria procurar a perfeição e a busca da felicidade. Ai daquele que não persegue esta utopia e do que perdeu a capacidade de sonhar. São os sonhos que alimentam a própria vida, lhe dão cor e adoçam o sabor, tanta vez amargo, da realidade.
Que sonhos para este novo ano? Principalmente nunca deixar de sonhar… se um sonho se desfaz, é urgente substituí-lo por outro. Sonhar sempre…sonhos enquanto pessoa, sonhos enquanto mulher, sonhos enquanto mãe….e… sonhos no novo papel (ainda não consolidado) de “atleta”. Pois é, quando me sentirei uma atleta? Será que toca algum sinal de alarme, num dia determinado, assinalando a entrada para o mundo dos atletas? Ser uma atleta, é sentir, pensar e agir como uma atleta? Como sentem, pensam e agem os atletas?
Que distância ainda me separa desse mundo mágico que pretendo descobrir…
Nas provas, a emoção é intensa e imensa…tudo absorvo com os “olhos do coração”. Esse meu mundo interior é quase tão rico e vasto quanto a moldura de uma corrida: variedade de paisagens, sons, cores, sorrisos, gracejos, suor …
Uma corrida é quase como uma peça de teatro em que os actores ensaiaram mais ou menos bem e assumem o seu papel.
Eu não ensaio bem o meu papel. Quero-o assumir, interiorizar e interpretar, mas… Ai as tentações do quotidiano! O cigarro que teimo em acender… A voz da razão, aconselha-me: “Não fumes! Se queres correr, não fumes!” Outra voz, ainda não sei bem de onde vem, diz-me: “É só mais este. Afinal, um cigarrito a mais ou a menos, em tantos anos de vício, não faz diferença!”
Depois vêm os treinos. A dificuldade em vencer a inércia… em deixar o aconchego do lar, o conforto de uma lareira acesa para enfrentar o vento gelado nas bochechas…
Por fim, vêm as dores. Dói-me tudo! Os joelhos que parecem ranger e estarem a ficar rígidos… as pernas que parecem presas e a não suportarem o peso do corpo… os pés que parecem chumbo…
Comecei há 4 meses a ser “aspirante” a atleta. Ainda não ultrapassei os 10 Km em provas, nem os 14 em treinos. Mas hei-de chegar aos 20!!! Km, claro! Quem me conhece pensa que isto é mais uma extravagância minha e estão cépticos quanto à minha persistência em aceder ao mundo da corrida.

Neste ano de 2007, tenho um sonho diferente…Ser pertença de um “mundo” diferente: um mundo verdadeiramente incluso, o mundo da corrida. Nas poucas vezes que o vislumbrei, vi pessoas felizes. Vi que o sucesso dos outros é vivido por todos. Vi que todos podem ganhar. Vi desconhecidos a ajudarem-se mutuamente, a sorrirem, a incentivarem os mais “fracos”, a correrem lado a lado pobres e ricos, cultos e menos cultos, brancos e negros, homens e mulheres… sem barreiras, sem violência, sem preconceitos, sem diferenças de espécie nenhuma. Ali, a única diferença é marcada pelo ritmo da passada.
É nesse mundo que eu quero viver!


publicado por alemvirtual, às 17:58link do post | comentar

Ontem, recebi a minha primeira revista “Atletismo”.
Ontem voltei a ser criança! “É para mim?” - não parava de repetir e perguntar o que era óbvio, visto ser o meu nome que constava no endereço. Saltei de alegria com a revista na mão! Tinha uma revista de atletismo. Estou habituada a receber revistas temáticas de cariz profissional, do sindicato, da autarquia ..., mas nenhuma relacionada com a minha recente paixão: correr. Receber como prenda uma assinatura da “Atletismo” foi uma verdadeira surpresa.
Senti-me importante, qual criança que, às escondidas, calça os sapatos de salto alto da mãe e se sente uma mulher.

À semelhança dos pequenitos que, orgulhosamente, exibem o seu novo brinquedo e a todos o mostram, também eu quis partilhar com quem possa ler estas linhas, a alegria infantil, sentida ao receber a minha “Atletismo”.

Canção Inocente

Menino: queres ser meu mestre?
- Contigo teria tanto que aprender!

A ser casto, sem querer;
a ser bom, sem o saber;
a ser alegre, sem ter
motivos para o ser.

Menino: queres ser meu mestre?
- Deixa o teu arco aí. Vem-me ensinar
a sorrir e a confiar;
a ter esperança e a perdoar;
a esquecer e a chorar...

Menino, que brincas no jardim:
- Tu sim,
podias ser um mestre para mim!

(José Carlos Queirós Nunes Ribeiro, poeta português, Sec. XX)

A. P.


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