existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
23
Abr 09
publicado por alemvirtual, às 09:43link do post

Era uma manhã de sol numa Primavera do mês de Abril que floria nos canteiros e nas bermas das estradas. Uma manhã perdida no tempo, num tempo de ser criança, há trinta e cinco anos atrás.

O tempo de ser criança é também o tempo de todos os sonhos. De ver o mundo à imagem da pequena estatura da infância, horizontes longínquos e fronteiras conhecidas. Um mundo de segurança e liberdade, sustentado pelo amor da mãe e a ternura do pai.

Para lá deste mundo de criança havia o mundo dos que nunca foram crianças, o mundo dos terrores e dos medos, das correntes e da prisão, da fome e da guerra. Esse era um mundo que pai nenhum daria por herança a seus flhos. E os pais, e também aqueles que ainda eram só filhos, fizeram apelo à mãe-coragem e ousaram dizer "não". Queriam mudar o seu mundo, para que ele assumisse os contornos reais, vislumbrados pelos olhos das crianças.

 

Naquela manhã de sol, um pequeno grupo irrequieto aguardava pelo transporte militar para mais um dia de aulas  no colégio, também ele militar. Nas pastas a despreocupação natural de quem vive feliz, apenas por ser criança.

O transporte tardava. As brincadeiras tomaram o lugar do tempo de espera. Não muito. Aproximou-se um pequeno jipe com um jovem de olhar nervoso.

- Hoje não há aulas. Voltem para casa. Os pais explicam.

Voltámos. Entre o grupo não houve lugar a grandes divagações. O mundo das crianças é assim: certo, ritmado, confiante.

Em casa, a informação que entretanto já aí chegara:

- Hoje não há escola.

E antes de voltar o interesse pra as brincadeiras com a boneca, uma pergunta inocente:

- Porquê?

E a resposta, de todo incompreensível para si:

- Há uma Revolução em Lisboa.

 

 

Há dias que marcam, definitivamente, a vida de cada um. São momentos únicos na história pessoal, dias com significado, marcos recordados e assinalados com tristeza ou alegria, consoante as recordações a eles ligadas. Mas há dias que marcam a vida, a alma e a história de um povo, de um país e de uma nação.

 

Madrugada fora, muitos partiram. Não sabiam se voltavam, nem ao que iam. Apenas tinham de ir. Iam ao encontro do desconhecido e das correntes que algemavam os pulsos e as almas. As palavras contidas e o silêncio imposto. Amordaçados na voz. Trémulos? Talvez. Mas em frente. Firmes na vontade. Para trás nunca!

 

Em cada ano, recordo a manhã daquele dia e agradeço a cada rosto conhecido e desconhecido, aos nomes escritos nos livros da escola e àqueles que permanecem anónimos, a coragem e a vontade de mudança.

A palavra liberdade assume um valor imenso tal como a palavra gratidão.

Hoje, tenho a liberdade para dizer "obrigada" e isso foi o maior tesouro que os homens do meu país conquistaram. Um tesouro que aumenta à medida que se reparte. Por isso, pelo quinhão que me tocou e fez de mim a mulher que hoje sou: "Obrigada".

imagem retirada de: http://amandovoce.files.wordpress.com/2007/12/paz-playerimage.jpg


Nuno,

Fernando, António,

Sim, refere-se ao 25 de Abril. Tenho a mesma opinião que o Nuno, sensivelmente, a julgar pelas suas palavras. Não confundamos liberdade com libertinagem ou corrupção.
Há dois anos atrás, escrevi o que a seguir ranscrevo, neste mesmo blogue.

Se há algo que me faça ter orgulho em ser portuguesa, sem dúvida que foi a coragem dos homens de Abril. Dos primeiros. Daqueles com quem convivia e daqueles que nem ouso sequer suspeitar que existem. Dos que, contra toda a tortura nunca renunciaram à verdade e à liberdade.
Por vezes, quando se gosta de algo há a tendência para estabelecer comparações ou analogias entre conceitos, ideais ou valores.

25 de Abril de 2007
Apercebi-me que, ultimamente, comparo muitas vezes a corrida e tudo o que a envolve a situações da vida quotidiana, do real e da sociedade.

Foi o que me aconteceu, hoje, ao reflectir um pouco sobre o significado que a Revolução de Abril teve ontem e aquele que assume hoje, sobretudo para as gerações pós-fascismo.

Há 33 anos atrás, alguém organizou uma corrida diferente. Chamaram-lhe "Corrida pela Liberdade".

O povo acorreu em massa, ao chamamento. Concentrou-se. Sentiu a adrenalina invadir-lhe o sangue...inundar-lhe as veias...o coração acelerado, batia ao compasso da expectativa do momento...

Soou o tiro de partida aos acordes melodiosos de palavras cantadas, versos em bocas de poetas e sonhadores...

O pelotão avançava enérgico, compacto, imenso...

Muitos se foram juntando, aplaudindo e incentivando. Chorava-se de emoção, de alegria mal contida, refreada por anos de espera, chorava-se de esforço...

Sonhava-se o caminho, projectava-se um percurso fecundo de paz e de pão...

Mas alguns deturparam o caminho. Pouco a pouco tomaram atalhos...surgiram atropelos...agudizaram os trilhos. Já não corriam connosco. Corriam por outros caminhos e outras estradas confusas conduziram-nos à libertinagem, à tirania do mais forte, à subjugação do mais fraco, à violência gratuita, ao vandalismo e a outros contra-valores.


E o pelotão, outrora compacto, foi-se dispersando e muitos ficaram pelo caminho...


A prova continua em aberto e renova-se em cada ano, em cada dia e em cada momento...

Aceitam-se participantes de todos os escalões sem inscrição prévia. Basta querer.

O prémio é aliciante e chama-se "Liberdade".


(Nota da Organização:

- É uma corrida contínua

- Os atletas mais experientes devem ensinar os principiantes a dosear o esforço para não haver desistências nem acidentes no percurso

- Não precisam de atestado médico nem de robustez física

- Garante-se uma sólida formação moral e prémios para todos

- O prémio recebe-se à partida

- Deve-se conservar intacto o prémio, durante todo o percurso

- No final da prova deverão fazer entrega do seu testemunho ao atleta que lhe suceder;



Para reflectir: Como é que eu vivo os ideiais de Abril, na minha vida? Que valores persistem? Qual é o meu testemunho?


"Em toda a parte só se aprende com quem se gosta."

Johann Goethe


alemvirtual a 23 de Abril de 2009 às 17:38

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