existe sempre alguém ...passo e fico como o universo...
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Abr 09
publicado por alemvirtual, às 09:43link do post | comentar

Era uma manhã de sol numa Primavera do mês de Abril que floria nos canteiros e nas bermas das estradas. Uma manhã perdida no tempo, num tempo de ser criança, há trinta e cinco anos atrás.

O tempo de ser criança é também o tempo de todos os sonhos. De ver o mundo à imagem da pequena estatura da infância, horizontes longínquos e fronteiras conhecidas. Um mundo de segurança e liberdade, sustentado pelo amor da mãe e a ternura do pai.

Para lá deste mundo de criança havia o mundo dos que nunca foram crianças, o mundo dos terrores e dos medos, das correntes e da prisão, da fome e da guerra. Esse era um mundo que pai nenhum daria por herança a seus flhos. E os pais, e também aqueles que ainda eram só filhos, fizeram apelo à mãe-coragem e ousaram dizer "não". Queriam mudar o seu mundo, para que ele assumisse os contornos reais, vislumbrados pelos olhos das crianças.

 

Naquela manhã de sol, um pequeno grupo irrequieto aguardava pelo transporte militar para mais um dia de aulas  no colégio, também ele militar. Nas pastas a despreocupação natural de quem vive feliz, apenas por ser criança.

O transporte tardava. As brincadeiras tomaram o lugar do tempo de espera. Não muito. Aproximou-se um pequeno jipe com um jovem de olhar nervoso.

- Hoje não há aulas. Voltem para casa. Os pais explicam.

Voltámos. Entre o grupo não houve lugar a grandes divagações. O mundo das crianças é assim: certo, ritmado, confiante.

Em casa, a informação que entretanto já aí chegara:

- Hoje não há escola.

E antes de voltar o interesse pra as brincadeiras com a boneca, uma pergunta inocente:

- Porquê?

E a resposta, de todo incompreensível para si:

- Há uma Revolução em Lisboa.

 

 

Há dias que marcam, definitivamente, a vida de cada um. São momentos únicos na história pessoal, dias com significado, marcos recordados e assinalados com tristeza ou alegria, consoante as recordações a eles ligadas. Mas há dias que marcam a vida, a alma e a história de um povo, de um país e de uma nação.

 

Madrugada fora, muitos partiram. Não sabiam se voltavam, nem ao que iam. Apenas tinham de ir. Iam ao encontro do desconhecido e das correntes que algemavam os pulsos e as almas. As palavras contidas e o silêncio imposto. Amordaçados na voz. Trémulos? Talvez. Mas em frente. Firmes na vontade. Para trás nunca!

 

Em cada ano, recordo a manhã daquele dia e agradeço a cada rosto conhecido e desconhecido, aos nomes escritos nos livros da escola e àqueles que permanecem anónimos, a coragem e a vontade de mudança.

A palavra liberdade assume um valor imenso tal como a palavra gratidão.

Hoje, tenho a liberdade para dizer "obrigada" e isso foi o maior tesouro que os homens do meu país conquistaram. Um tesouro que aumenta à medida que se reparte. Por isso, pelo quinhão que me tocou e fez de mim a mulher que hoje sou: "Obrigada".

imagem retirada de: http://amandovoce.files.wordpress.com/2007/12/paz-playerimage.jpg


Acabo de ler um dos mais belos textos que já li sobre esta data que agora se assinala.
Eu, já não era uma criança (tinha 19 anos!!!)e foi à entrada da fábrica onde estive a trabalhar alguns meses (ia eu a marcar o ponto) que uma colega, a Teresa, me disse :-" Bom dia! Então é desta é que o governo vai cair ...!".
Só à hora do almoço, em casa, é que ouvia os constantes comunicados do Movimento das Forças Armadas, à espera da rendição de Marcelo Caetano.
Depois, bem, depois foi aquela "bebedeira colectiva"(no dizer de Miguel Sousa Tavares) que abriu as nossas mentes e criou convicções que o tempo veio a transformar em ilusões.
Obrigado Paula, por mais este momento.

Beijinho.
FA
Fernando Andrade a 23 de Abril de 2009 às 14:26

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